terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A palavra é do mundo. O número, dele mesmo

Nunca tive simpatia pelos números. Não gostava de matemática, tampouco de física. Nos tempos ainda mais remotos, deixei de conhecer o local onde era gravado o Sítio do Pica-Pau Amarelo por não ter decorado a tabuada. Castigo de mãe. Não adiantou meu choro sentido pelas estórias – naquele tempo ainda estórias com "e" – de Lobato.

Entendo hoje parte da minha rejeição a eles. Os números são egoístas. Requerem toda nossa atenção. Palavras entram por um ouvido e saem pelo outro quando não interessam a nós. Ou quando não a levamos a sério por uma questão de auto-preservação ou condescendência. Com os números isso também pode acontecer, é verdade.

Mas quando instrumento ou parte de um material de trabalho, os números são exageradamente carentes. Não admitem distrações. Se não prestarmos muita atenção neles, erramos. Corremos o risco de reprovação, demissão ou coisa pior.

As palavras são mais flexíveis. Permitem interpretações e adaptações. Podem se explicar melhor e mudar o sentido de uma prosa. Podem se corrigir. E estão dispostas a rever sua opinião e serem convencidas.

Se você está escrevendo um texto e é interrompido pelo chamamento de um amigo, como aconteceu comigo agora, pragueja a perda do raciocínio e retoma depois a ideia. Com os números, é bom checar tudo desde o princípio. É preciso estar certo de que não foram traiçoeiros, uma vez que exigem a centralidade dos olhares e do raciocínio.

Os números quando se aventuram estão sempre calculando os riscos e a margem de erro. A palavra é impetuosa, ainda que utilizada por um estrategista que a transforme em refém de seus objetivos. Uma hora ela dá uma rasteira no estrategista e sai sem a vontade dele, por vontade própria da verdade.

Elas são fascinantes porque mudam conforme os usos e costumes. Tentam aprisioná-las em regras. E elas fogem nas exceções. Tentam aprisioná-las em significados. E elas fogem em novos imaginários.

Uns dirão que a palavra fere. Sim, fere na sonoridade do incauto que, ao magoar o outro, faz mal a si mesmo. Mas expressa carinho, amor, solidariedade e retomada de sentimentos sublimes que os números nunca conheceram. E provavelmente nunca conhecerão.

E se as palavras são tolhidas de imaginação pelos gramáticos, elas encontram todo o seu potencial criativo e libertário nas mãos de inventores como Manoel de Barros e outros desconhecidos anônimos, que imprimem a elas cores, sombras, texturas, iconografias e novas combinações.

Um comentário:

Anônimo disse...

Gostei, hein? Tem boas novas?

Ana Laura