sexta-feira, 24 de setembro de 2010

“Hoje eu atingi o reino das imagens, o reino da despalavra”
Manoel de Barros
  
Se fosse em outro tempo, a fotografia teria sido entregue dentro de um envelope pelo carteiro. Mas como em outro tempo, um tempo mais romântico e fora de moda, a algaravia de fora silenciou enquanto se deteve a observar o estranho da imagem.

Primeiro olhou sem olhar, como alguém que olha por olhar, mas que tem receio do que pode encontrar. Depois olhou com olhar, olhar de perscrutador.

Inquiriu quem habitava aquele corpo, em transformação há mais de 40 anos; o que teria passado em sua história para fazer o que ele é hoje, nem melhor, nem pior, sem julgamento de valor; quanta coragem ainda teria para se entregar verdadeiramente àquilo que chamam de amor.

Então olhou com olhar, olhar desafiador.

Desafiava-o a ser deslocado do tempo comum das mesmices, onde todos têm papel previsível a desempenhar.

Se fosse em outro tempo, a fotografia teria ido parar na cômoda da cabeceira, iluminada por um candeeiro. Mas como em outro tempo, um tempo mais romântico e fora de moda, havia um poeta padrinho, que às vezes sussurrava algo na hora do cafezinho.

6 comentários:

Rogério disse...

Não estou gostando nada nada nenhum pouco desse estranho que tem aparecido aqui, prefiro acreditar que ele é uma licença poética....rsrsrsrs Já tentei ler umas coisas do Manuel de Barros e não gosto dele. Beijos

Rogério disse...

Manoel com o, foi mal

Viviane Viana disse...

Oi, Rogério. Por que você não gosta da poesia de Manoel de Barros? O que tem nela que o incomoda?

Rodrigo disse...

De susto, de novidade, de surpresa, bate o coração do menino pequenino.

Coração de menino pequeno não bate devido a movimentos cardíacos involuntários. Este é o de adulto, que aprendeu sobre colesteirol e outras velhices.

Menino tem bumbo, tem um mecanismo vivo de surpresa atrás da outra

A foto do tempo do lambe lambe que deveria vir deixou surpresa de fazer bater coração de menino

Rogério disse...

Imaginando sua voz doce e seu jeito menina-mulher ao fazer essas perguntas eu sou capaz de me tornar fã do Manoel de barros pra sempre... Falo sério, vc que não me leva a sério.
Nunca me aprofundei muito mas acho que falta emoção nas poesias, me parece mais um jogo de palavras.
Beijos

Viviane Viana disse...

Rogério, vejo esse ‘jogo de palavras' a que você se refere como mais uma qualidade de Manoel de Barros. Ele maneja de forma habilidosa nossa língua; como um ourives, ele cria e recria, lapida, imprime novos contornos e transforma a matéria que parecia acabada. Longe de ser mecânico, esse processo é pleno de emoção, de inquietude, de filosofia. Muitas vezes Manoel de Barros me incomoda, me desconforta. E isso é maravilhoso porque me obriga (não gosto dessa palavra, mas cabe bem aqui) a (re)ver o meu olhar.

Oi, Rodrigo. Questão contraditória essa. É mais ‘seguro’ ter um coração autômato, que de tanto bater no mesmo passo não tem dúvida do ofício, ainda que cerceado por gorduras sedimentadas. Às vezes gostaria de possuir um desses. Porque o outro é louco, indomável e às vezes se apavora e me apavora.