sábado, 16 de janeiro de 2010

Consternados de fina estampa

A receita é simples. Basta juntar dois quilos de barro, uma colher de manteiga e um pouco de sal, mexer bem até obter uma massa homogênea e colocar ao sol pequenas quantidades prensadas com a mão. Está pronto o biscoito da miséria que alimenta Uênio, de apenas um ano de idade, entre outras crianças, jovens e adultos no Haiti.

A reportagem exibida em um programa de tevê especializado em esportes foi ao ar no ano passado, portanto, antes do terremoto que destruiu a pobreza daquele país. Se, à época, eles comiam barro, o que será desse mesmo povo depois que o assunto for esquecido pelos meios de comunicação?

As imagens do caos, de tão repetitivas, podem anestesiar nossos sentidos. Com o tempo e a exposição prolongada, nos acostumamos a cenas que parecem tão distantes de nossa realidade.

Tomamos chope e comemos frango a passarinho enquanto assistimos à degradação do que somos. Demonstramos solidariedade, é claro. No happy hour, comentamos com expressão consternada: “Que tragédia!”. Depois voltamos à pauta do dia: “Pôxa, cara, tô querendo trocar o carro. Pensei comprar um Cerato, mas dizem que o Corolla é mais potente e confortável”.

Nessas horas me lembro do pequeno Uênio, sem roupas, sujo, de olhos brilhantes, que babava com o biscoito de barro. Se ele ainda estiver vivo, é provável que morra sem conhecer a infância e o brigadeiro.

Nenhum comentário: