sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Acordou com aquela ressaca moral. Se conseguisse, teria dormido o dia inteiro, uma vez que a noite de sono não serviu para purificar suas inquietações. Levantou da cama sem saber o que fazer com este dia. Despiu-se devagar, ligou o chuveiro e passou pelo menos meia hora debaixo da ducha quente. Procurou o roupão branco e não o encontrou. Resolveu vestir-se adequadamente sem delongas. Olhou a bagunça, que se espalhava por toda a casa, e não se animou a extingui-la. Nem essa, nem a outra.

Podia garantir as próprias intenções. Não compactuou com a má-fé e não percebeu de imediato a má-fé do outro. Adorava brincar e quando brincava voltava a ser criança. Criança que faz peraltice, mas jamais age de má-fé; pelo menos não criança sadia. Pensou esclarecer, mas desistiu no primeiro pensamento. Como diz Kafka, "de um certo ponto em diante não há mais como voltar atrás".

Emoldurada pela janela, a vizinhança lá embaixo estava viva.

Nenhum comentário: