domingo, 29 de novembro de 2009

Dá no mesmo

Pomba Enamorada pareceu a ela, sentada em uma poltrona egg vermelha de inspiração do designer Arne Jacobsen, brega e pouco lúcida. Será que a ajudante de cabeleireiro não percebia que Antenor não a desejava? O que mais ele precisava fazer para que Pomba Enamorada se desse conta da inutilidade das orações na Igreja dos Enforcados e do ridículo das simpatias?

Desviou o foco de luz, descansou o livro de Lygia Fagundes Telles na mesa lateral e reordenou suas pernas sobre o pufe enquanto, silenciosamente, reforçava seu desgosto pelos personagens.

Antenor é o tipo de homem que jamais pertenceria a seu convívio social. Ter sido motorista de ônibus e borracheiro menos influenciava. Tampouco sua situação econômica. O problema estava no vocabulário grosseiro e nos modos rudes. Era a personificação do grotesco, aquilo que ela se esforçava para tolerar – não porque a Igreja protegesse os pobres e os desafortunados e pregasse que deles é o reino dos céus, mas porque entendia que os grotescos resultavam da sociedade da exclusão pervertida.

Pomba Enamorada frequentava bailes como o São Paulo Chique, onde havia montes de Antenor; precisava esconder a falha do canino esquerdo fechando o sorriso – enquanto não era promovida no salão de beleza; usava cílios postiços que ficavam evidentes quando surpreendidos pela chuva; comprou o CD da Ave-Maria dos namorados em uma liquidação; fazia crediário em loja de departamento popular; e escrevia cartas com corações flechados com muito mais que o dobro da idade de uma púbere.

Lembrou-se nesse momento de que precisava transferir algum dinheiro para uma aplicação rentável, terminou de tomar o banchá e abraçou o laptop. Ao abrir suas mensagens, pensou nele, que há cerca de três anos assombrava seus pensamentos, mas que agora estava metido numa caixa de trocas antigas e nem por isso fora esquecido.

Será que faltava lucidez apenas em Pomba Enamorada? Ela só não tricotava para ele suéteres verdes.

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