quarta-feira, 8 de julho de 2009

Ser, não ser e se achar

Há aqueles que se acham. Há aqueles que se acham e de alguma forma são, como Caetano Veloso. E há aqueles que são e não se acham ou, pelo menos, não revelam ao mundo seu ego narcísico. Dos três tipos, o que mais me intriga, sem dúvida, é o primeiro.

São feios que se enxergam lindos e vivem ressaltando aos outros suas curvas (mal esculpidas). São ignorantes que decoram meia dúzia de palavras, como paradigma, planejamento estratégico, empoderamento, governabilidade e acreditam ser doutores em alguns assuntos. São ocupantes de micro poderes imperceptíveis para a maioria da gente que agem como se presidente dos Estados Unidos fossem.

Sempre que lido com esses é inevitável não sentir nojo. Escrevo nojo não por falta de palavra melhor que qualifique a sensação. Poderia dizer repugnância. Mas nojo é em si uma palavra tão nojenta que bem se encaixa aqui. O nojo, tenho que admitir, é acompanhado às vezes pelo reconhecimento do mérito, principalmente quando são os personagens muito piores daquilo que se julgam. Sim, justiça feita, eles têm – ou demonstram – uma auto-estima descomunal.

Desde que caiu em minhas mãos pela primeira vez a crônica Notas de um ignorante, do Millôr Fernandes, sempre me lembro dela. O humorista se pergunta o que fez da vida ao constatar que não é o mais inteligente, o mais culto, o mais viajado, o mais atlético, o mais boêmio. Nem mesmo com relação a acidentes sofridos e desgraças vividas ele lidera o ranking.

Também passo por essas crises. Leio, mas quando penso que estou lendo muito, me lembro do amigo Maurício, devorador compulsivo da literatura mais complexa. Costumo ser aplicada, mas nunca como Vanessa, que já está na sala quando o professor chega, a menos que a porta esteja trancada, e dela só sai após o "Até a próxima aula e obrigado!". Minha insubordinação não é tão valente quanto a da Daniela, que diz que a chefe é bundona na cara dela. Falo palavrões, mas o repertório e a freqüência não me deixam chegar perto da Renata. Até porque um "buce.." é algo quase impronunciável para mim.

Levanto 45 quilos com esforço e, ao olhar para Lilian, percebo que preciso chegar aos 100 e correr e nadar e pular e comer mais proteínas e, quem sabe, nascer de novo. Minha preguiça não é como a do meu irmão, que prefere não aumentar o volume da tevê se o controle estiver na cozinha. Mas minha disposição também não é como a da Jane, que vira madrugadas seguidas e acorda às 6h para o curso de Inglês. Não tenho mais a ingenuidade da Maria Eduarda. Tampouco sou desconfiada e cautelosa como o Junior. Quando me acho engraçada, choro de rir com Cledivânia. E quando penso ser amiga, aprendo com Flaviana que preciso exercitar a entrega.

Se não fosse a crença folclórica nas características próprias que me tornam única e especial, assim como cada um de vocês que leram ou não este texto, as farmácias morderiam mais do que o Leão o meu salário, empregado em ansiolíticos.

Isso provavelmente explica parte da minha curiosidade em entender aqueles tantos que se acham os melhores e que não são sequer medíocres.

2 comentários:

Antônio Pedro disse...

Vc falou de uma galera e nem uma menção a mim? Nada? tô sem moral...

Anônimo disse...

Melhor assim Antonio que aparecer como desbocada... Vivi, aquela Renata por um acaso sou eu? Mas eu não falo palavrão...rsrsrs