segunda-feira, 13 de julho de 2009

O dia em que Roberto Carlos morrer

Não cheguei em frente ao portão do Maracanã no último sábado, tampouco meu cachorro me sorriu latindo, até porque Lupicínio voltou pra casa dos pais adotivos há três semanas. E se vocês pretendem saber se eu gosto do Roberto Carlos, já vou lhes dizer.

Na pré-adolescência, acompanhei minha mãe a um show do cantor no Maracanãzinho. Não me lembro agora se ela tinha me posto de castigo ou se eu queria viajar com as amigas no final de semana seguinte. Mas me recordo que quase saí de lá com uma rosa vermelha nas mãos. Por sorte o 'Rei' não distribui calcinhas como o Wando ou bacalhau, como fazia Chacrinha.

Se não fosse uma fã entusiasmada, muito mal educada e mais alta que minha mãe ter voado pra cima de nós e roubado a flor que flanava em nossa direção, provavelmente Dona Sandra teria as pétalas de rosa até hoje, guardadas no fundo de uma gaveta ou nas páginas da Bíblia. Minha mãe não é fanática, como tantas outras que vejo por aí, mas faz backing vocal das canções mais antigas e é dona de alguns CD´s, que felizmente não são ouvidos há muito tempo.

As músicas de Roberto Carlos, como mostraram as reportagens que anunciavam o show de 50 anos, uniram gerações de casais, já separados hoje, mas isso não interessa aos fãs. Como também não devem ser de interesse as histórias de namorados que se separaram por causa dele. Como eu.

Minha professora de Espanhol passou mal e foi substituída por Estebán. Naquele dia não aprendi nada sobre homônimos e verbos irregulares. Mas com a ingenuidade dos 20 anos, apostava que não existia homem mais lindo e perfeito do que ele e tinha plena convicção de que seria capaz de conjugar para sempre o verbo enamorar no presente do indicativo cada vez que ele olhasse pra mim.

De tanto eu rezar, a professora titular ganhou mais uma semana para se recuperar. Dissimulada como Capitu, estive na coordenação para elogiá-la e disse que era muito justo que ela ficasse mais uns dias de repouso, afinal, era uma professora muitíssimo dedicada, que não poupava esforços, menos ainda cordas vocais, para aos berros ensinar que não deveríamos pronunciar um “r” fraco quando encontrássemos dois juntos.

Estebán, mais familiarizado com o grupo, fazia brincadeiras e foi convidado para o aniversário de uma das alunas. Fui para a festa cheia de expectativa, mas quase sem esperança. Eu bem poderia ser descrita à época como a Emília de José de Alencar, com “altura de mulher em talhe de criança”, em que “a óssea estrutura do talhe tinha nas espáduas, no peito e nos cotovelos, agudas saliências, que davam ao corpo uma aspereza hirta”.

Apesar de a diferença de 12 anos de idade, do assédio das outras alunas e até das professoras e da fofoca que correu toda a escola o mês inteiro, passamos a noite conversando. O que eu falava aos 20, não faço idéia. Pelo visto, não era bobagem, ou se era, o interesse dele prevaleceu, porque teve que me ouvir dias seguidos até conseguir o primeiro beijo, que relembrei dúzias de vezes até o segundo e fatídico encontro.

De camisa azul da cor dos olhos, que contrastavam com os cabelos negros e longos, Estebán apareceu na porta da minha casa com uma rosa vermelha cantarolando uma música de Roberto Carlos. “Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui!”, pensei. Agradeci educadamente o presente e interrompi a canção às pressas com um beijo. Na descida do elevador, ele canta Amante à moda antiga, desafinado e cheio de sotaque, e mostra com orgulho a carteira de sócio remido do fã clube do cantor. O clima romântico e a magia das histórias de Cinderela foram quebrados com o sapatinho de cristal que eu mal experimentara. Estebán voltou pra casa com A namorada, mas sozinho.

Tenho, portanto, motivos de sobra para odiar Roberto Carlos, mas não odeio. Não gosto do estilo, não ouço as músicas, jamais comprei CD´s ou DVD´s, nunca permito que minha estação de rádio o inclua no cardápio, mas pela presença dele nessas histórias da minha vida e da história de vida dele, ainda que em parte enobrecida pela força poderosa do marketing, respeito o profissional e simpatizo com o homem-cantor.

PS. Pensei guardar este texto para publicá-lo como uma espécie de obituário, no dia em que Roberto Carlos morrer, mas sobrevivente do jeito que ele é, vai que embarco primeiro?

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