sexta-feira, 17 de julho de 2009

O caroço

Com guarda-chuva na mão, um colega de trabalho se prepara para caminhar até a casa sob garoa que anuncia temporal. Pergunto onde mora e, a caminho da minha, ofereço carona. Tomo conhecimento de seu nome, sobrenome e de que escreve. Menos agora, já que é pai que trabalha fora e que participa da criação.

Seu filho, como a maioria das crianças, quer saber por que, como, onde, quando e como. Numa dessas intrigas e curiosidades, o menino pergunta por que as frutas têm caroço. Donagema escreve:

A história do caroço

Deus quando criou o mundo não fez esboço de projeto. Foi criando as coisas uma por uma, por uma mágica condição divina de ver aquilo que não existia, e foi impondo à sua criação a minúcia magistral que vemos num gafanhoto, ou num rio enredando as pedras, deslizando suave à moda de suas barrancas.

Deus vislumbrou no nada a robustez de um touro bravio, a altivez das aves de rapina e pousou os olhos no vazio onde achou por bem existir um carvalho e sobre seu tronco recém criado, apaziguou os ânimos de duas cores nervosas fazendo da birra de ambas uma borboleta.

Deus fez o mundo assim, de improviso e de inspiração brutal.

Mas o diabo, que fora a primeira das suas criações e que via nisso um grande privilégio, andava amuado, de canto a canto, arrumando meios de fazer um malfeito.

Numa manhã cristalina, ao acordar e dar com a luz abençoada que inventara do mais puro breu, Deus sentiu na boca um gosto doce que precisava criar e falou em voz alta para si próprio como para reforçar a intenção, “vou criar a fruta”.

O diabo, perto, não perdeu tempo, “vou por no meio um caroço”. E Deus, que não poderia voltar a trás, e parte disto justifique, talvez, o livre arbítrio, fez de todo caroço uma semente.

O diabo derrotado foi se sentar à escada, na porta dos fundos do céu, chorando baixinho de ódio. Chorava de cair lágrimas, que Deus por brincadeira de menino, fez virar cada uma um marimbondo.

II (pós escrito)

O fato é que as frutas, quase todas, têm no meio um caroço; duro, maciço, indigesto, um pouco do mau que há imbricado em todas as coisas boas. Um caroço que ao existir, limita o prazer da mordida, a parte que não mata a fome, mas que engendra o novo e que lançada à terra, germina e perpetua a vida, porque é semente.

Deus não se desfez do caroço, talvez pudesse, mas não o fez e ao admitir para si este limite e a necessidade de transpô-lo pelo esforço, pela sua genialidade, criou e deixou na terra para os homens o sentido da superação.

A vida de todos nós, como as frutas, tem no meio grandes caroços. São estas desilusões, estes sofrimentos, as nossas limitações e angústias. É como se parte desta coisa boa, bonita, de gosto delicioso e de aroma raro não pudesse ser aproveitada e que melhor fosse não existir. Mas é uma bobagem acreditar ser possível desfazer-se dos caroços da nossa vida, é preciso entender a obra toda da nossa existência com eles dentro, uma parte da essência e fazer de cada um, com astúcia e sabedoria, uma semente capaz de germinar o novo, a mudança, para uma vida melhor, para um mundo melhor.

Um comentário:

Ricardo disse...

É preciso sempre reler o que se escreve, pra relembrar o que se sabe. Bjin.