quinta-feira, 23 de julho de 2009

A vida de Humberto

Enquanto aguardo minha vez no caixa eletrônico, ouço sem querer a conversa de dois homens sobre um terceiro:

– Pois é, cara, não sei o que deu no Humberto.
– Rapaz, ele abandonou a vida dele do nada.
– Podia esperar isso de qualquer um, menos dele.

Não conheço o Humberto de que falavam e, provavelmente, nunca conhecerei. Não sei o que aconteceu com ele, se virou gay, monge ou se deixou a esposa com os trigêmeos entre mamadeiras e fraldas. Mas o que foi feito da vida dele não me despertou tanta curiosidade como o fato de Humberto ter abandonado a vida dele. E do colega afirmar que não se surpreenderia se qualquer um tivesse feito o mesmo.

Qualquer um pode desistir da vida optando pela morte ou deixando-a passar na rua enquanto se está sentado ao sofá ou mesmo de pé na sala. Mas não entendo como, por exemplo, poderia eu abandonar a minha vida.

Ainda que eu mude para Maués e me dedique à pesca ou ao cultivo do guaraná, minha vida continuará sendo minha vida, a menos que eu me torne refém da tribo Sateré-Mawé. E, pensando bem, nesse caso de liberdade privada, minha vida não deixa de ser minha.

Seria muito interessante se Humberto, vocês, eu e qualquer um pudéssemos abandonar a própria vida e escolher outra quando cansássemos de nós mesmos.

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