quarta-feira, 1 de julho de 2009

Psicologia de elevador

"Segurem o elevador!", peço aos de dentro enquanto adianto os passos. As três moças não saem do lugar, inclusive a que estava próxima ao painel de comando. Se não fosse o moreno de olhos verdes mover o corpo alto para frente das paredes retráteis de metal, teria eu perdido alguns minutos. E evitado a vergonha por que passei.

Ao olhar mais detidamente para o rapaz a fim de agradecer a gentileza, entendo a razão da imobilidade das colegas de gênero. Darwin explica. Posso dar cara à tapa como pelo menos duas das três pensaram: "A exibida chega atrasada e ainda encontra motivo para puxar papo com o bonitão" e "Olha o jeito da palhaça... É só sorriso!". Argumento por telepatia que nada inteligente foram elas. Se uma tivesse tentado apertar (ou fingido tentar) o botão referente à abertura de portas, teria assunto para iniciar uma conversa.

Mexo na bolsa em busca do papel onde anotara os nomes das pessoas, seus cargos e os pontos nevrálgicos da reunião, enquanto o moreno comenta que quando estamos com pressa todos os sinais vermelhos formam um cartel contra a livre concorrência. Elas não gostam nada da última parte do texto. Mas o que se há de fazer? Para isso existem as leis e a Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça.

Àquela altura, éramos cinco mulheres e ele. Sorrio à observação sem elevar muito a cabeça, primeiro, porque fiquei intimidada com os olhares das fêmeas invejosas, segundo, porque já estava no estágio pré-desespero, com receio de ter deixado todas as anotações em cima da escrivaninha. Nesse momento, cai um objeto da minha bolsa.

"Ela não perde tempo", acusa uma. "Esse truque é mais antigo que minha avó", critica a segunda. A calúnia das outras foi silenciada pela visão do que parara no piso do elevador: um pregador de roupa de cor laranja. Nem eu acreditava no que meus olhos viam. O que fazia o pregador de roupa dentro da minha bolsa? Pior é que, confinada em um cubículo, não era possível dizer que o pregador saiu voando de um varal ou da sacola de outra pessoa.

Do alto do meu Arezzo, de vestido e ainda atônita, demoro a me abaixar. O homem faz uma genuflexão e sobe rindo com o pregador de roupas na mão, comprovando a gozação machista de que cabeça e bolsa de mulher não têm lógica. Enquanto isso, as colegas nada solidárias, nem na alegria, nem na tristeza, entoam o mantra: "Bem feito! Bem feito! Bem feito".

Devolvido o pregador, agradeço novamente a cordialidade e me justifico: "Lavo roupa pra fora". Ele, espirituoso, responde: "Muito prazer! Sou Eduardo, engraxate". O elevador abre a porta no meu andar de destino.

Tchau!

Entro na sala sem saber quem é quem e resgatando de memória o que li no dia anterior, mas cheia de autoconfiança.

2 comentários:

Intrépida Alma disse...

Viviane sou prima de Renata e adorei seu texto. É de gente assim que precisamos no mundo. Gente com atitude e espirituosidade. Melhor ainda quando encontramos quem nos ajuda nesse bate-bola...rs
O texto ficou muito bom. Parabéns.

Viviane Viana disse...

Obrigada, Geiza. Obrigada pelas palavras e pela visita. Sairei daqui agora e irei lá no Intrépida Alma saber o que essa alma intrépida sente.