quarta-feira, 10 de junho de 2009

Sangue de Jesus tem poder!

Oasis explodia meio deformado no velho Sanyo e eu ainda não apaziguara minha raiva. Véspera de feriado. Quem ficou na cidade, se preparava para a promissora noite que teria pela frente. Não era diferente comigo. Talvez um pouco.

Resolvo abrir um merlot. Puxo a primeira, a segunda, a terceira gaveta, reviro todos os armários da cozinha e cadê o saca-rolha? Minha bela e prestativa mãe, no afã de adiantar a mudança iminente, encaixotou o Victorinox. Curioso é que ela deixou dois abridores de garrafa, provavelmente por achar que eu consumo cachaça.

Espiei as anotações nas caixas. Li xícaras, copos, bandejas, panos de prato e nada do sacador. Havia cinco caixas sem identificação. Pensei em abrir as cinco – com sorte, poderia encontrar o saca-rolha na primeira delas, mas, com azar, ele poderia estar nas outras tantas caixas identificadas e ter passado despercebido pelo tamanho. Cogitei mudar de roupa e ir ao supermercado mais próximo. Mas a auto-suficiência, ou a preguiça, falou mais alto que Wonderwall e fui para a cozinha.

Com uma tesoura e um socador para amaciar carnes, decidi que abriria a garrafa ou não me chamaria mais Viviane Viana. Quem sabe Gisele Bündchen? Minha intenção era enfiar uma das pontas da tesoura e depois fazê-la rodopiar até que a rolha saísse inteirinha do meu caminho. Foi quase isso que aconteceu. Após a quarta batida, em vez de a ponta da tesoura fincar na rolha, a rolha desceu e não havia santo capaz de trazê-la à borda. Resolvi seguir o dito popular e não remar contra a maré, muito menos mexer em time que está ganhando. Se ela não queria vir ao mundo nosso de cada dia, que fosse cumprido seu último desejo. Empurrei de ímpeto a rolha para baixo. Foi quando a desgraça se abateu sobre mim.

Hitchcock ficaria com inveja. Parecia que eu tinha levado um tiro no meio da testa. Escorria vinho do rosto, do cabelo, dos armários brancos. O alvo chão que a diarista tivera o trabalho de passar o dia clareando estava salpicado de sardas. A escultura de Henry Moore na minha blusa também mudara de cor. O assassino não poupou nem Lupicínio Rodrigues, que de caramelo tingira-se de bordô.

Depois de rir de mim mesma, pôr em ordem aquela confusão – incluindo o cachorro alcoólatra que rosnou porque queria beber mais, despejei o vinho na taça que fora poupada do empacotamento, não sem antes retirar com o dedo os restos mortais da rolha. Fiz Oasis cantar de novo só pra mim, que a essa altura já estava quase rouco, e aqui estou prestes a colocar um ponto final para me entregar de alma e copo a Morfeu e Baco.

Entre deuses romano e grego, salvaram-se todos. Pelo menos Lupicínio e eu.

4 comentários:

Marcya disse...

Olha, já me disseram que batendo o fundo da garrafa na parede com - muito - jeitinho, também sai. Mas quem é que vai tirar a prova?...
Adorei o blog, Vivi!

Anônimo disse...

O que um mulherão desses cheia de pretendentes faz em casa sozinha véspera de feriado tomando vinho? Está arrastando corente por quem? Santo desperdício. Te adoro minha linda
PN

Viviane de Paula Viana disse...

Marcinha, acho que não tenho esse jeitinho todo especial. Melhor eu comprar com urgência outro saca-rolha... Obrigada! Beijos

Viviane de Paula Viana disse...

Hahahahaha
Quem te quer, você não quer. Quem você quer, não te quer. Conhece essa história?! Mas não era o caso de quarta.
Beijo

PS. Não esqueci não. Mando na terça, mais tardar.