sábado, 13 de junho de 2009

O Gladiador

Ainda zonza com a bebedeira, a crise de sinceridade e a satisfação em ter dado mais um passo numa transação comercial que se revela bem-sucedida – fatos de ontem não necessariamente nessa ordem, levo meu corpo até a academia sem nenhuma convicção.

Em um daqueles aparelhos que não decoro o nome, o número e as regulagens necessárias, aguardo o minuto entre uma série e outra, quando um monte de músculos com um rosto não familiar chama meu nome. Respondo tímida um “oi”. Presumo ser alguém do trabalho. Muita gente me reconhece que eu não conheço. Mas minhas histórias quase nunca são simples assim.

– Tudo bem, Viviane? Você não me conhece. Vi seu nome na ficha do treino. Que coincidência encontrá-la aqui de novo!, responde ele cheio de disposição.

Estranho ter conseguido ler meu nome na ficha. Quando estou em um aparelho, a ficha fica sobre o piso com a garrafinha de água em cima. E a que coincidência ele se referia se, a julgar pela massa magra, podia apostar que passa o dia inteiro na academia? Esbocei um quase sorriso por delicadeza.

– O que você faz?

Antes que eu pudesse responder, ele emenda:

– Com esse rostinho e um corpo desses, você nem precisa trabalhar.

Curioso é que ainda hoje tem homem que acha cortês dizer isso a uma mulher.

– Sabe, gostei de você, te acho muito interessante, quero te conhecer melhor.

Nessa hora, pensei que ele era eu ontem e me solidarizei. Entoei a ladainha de sempre, com agradecimento e lisonjas e uma conjunção adversativa. No geral, aquele “mas” que é de matar.

Ele faz o tipo bonitão, mas os três minutos de conversa foram aborrecidos e era nítida a nossa incompatibilidade em todos os sentidos. De qualquer modo, não estou à caça e nem queria ser a presa do Gladiador. Mas o cara foi persistente.

– Vamos tomar um suco depois que sairmos daqui?
– Não posso. Tenho um monte de coisas a fazer.
– Que tal um chope mais tarde ou um cinema amanhã?
– Obrigada, mas acho melhor, não. – respondi baixinho, com fala mansa, preocupada em não ferir os sentimentos do Gladiador.
– Posso ficar, então, com o seu telefone?
– Prefiro que não.

Difícil ser agradável numa situação dessas. Ele poderia ter nos poupado se tivesse parado no convite para o suco. Lá eu demonstrara todo o meu desinteresse. Não ia passar meu telefone somente para que ele não ficasse constrangido. Faz parte de nós a frustração. Idealizamos, criamos expectativas e nos frustramos. Tenho isso muito fresco na memória recente.

– Bom treino a você. Até mais!, respondo com certa compaixão.

Gladiador, ofendido em sua vaidade, mostra quem realmente é:

– Não acredito que você está me dispensando. Se enxerga!, diz ele com uma violência descabida.

Olho pra mim no espelho e penso como estamos despreparados para lidar com sentimentos ruins, como a frustração a uma necessidade não atendida, a rejeição, a raiva. Entrei zonza na academia e saí com um turbilhão de pensamentos psico-socio-filosóficos de botequim.

4 comentários:

Andréia disse...

O cara foi um idiota sem comentários. Mas com a falta de matéria prima no mercado do jeito que está, você não está muito exigente? Pq não foi tomar suco e conversar para saber qual era. essas coisas não acontecem comigo...

Antônio Pedro disse...

Que babaca! Depois dizem que somos preconceituosos...

Ruth disse...

Otário! Ele é quem tem que se enxergar. Beijos

Rogério disse...

Fiquei mais indignado porque sei (não gostaria mas sei... kkkkk) como você é amável e doce até na hora de dizer que não está afim de alguém. O cara é um escroto.