segunda-feira, 29 de junho de 2009

Ingratidão

Três vezes o despertador gritou e apesar da veemência dos chamados, que perturbavam com arrogância minha alienação convicta da vida, três vezes, assim como o apóstolo Pedro, eu o neguei. Menos devido ao resultado da equação necessidade biológica e horas efetivamente dormidas que ânimo para enfrentar mais uma reunião modorrenta.

Quem me encorajou a levantar foi Catherine. Enquanto durmo num quarto espaçoso com uma cama grande só pra mim, ela divide o dormitório com outros cinco irmãos e a cama com um deles. Cubro-me com uma manta felpuda antialérgica para enfrentar o frio de Brasília e repouso a cabeça em um travesseiro de pluma de ganso; ela dispõe de um lençol e o corpo da irmã mais nova para se proteger do rigoroso inverno francês e alivia parte da pressão do crânio em um encosto tão atrofiado quanto seus braços.

Tomo café da manhã que varia conforme a minha vontade e a disciplina em ir até o supermercado e abastecer a despensa, entre pão de forma com grãos, suco de laranja, peito de peru e capuccino. Ao passo que só resta a Catherine passar água quente pela borra da véspera para depois adoçá-la com açúcar preto.

Meu desjejum é reforçado às vezes por um lanche intermediário – uma fruta, uma barra de cereal ou biscoitos – até a hora do almoço, rico em proteínas e vitaminas. Não pode ser diferente. Gasto muitas calorias para me equilibrar em saltos altos, emitir pareceres, elaborar projetos.

Catherine veste as calças puídas, os sapatos velhos e leva o almoço de casa: um sanduíche preparado com uma fatia fina de queijo e manteiga em apenas uma das metades, que supre as necessidades após horas de trabalho pesado nos veios de uma mina de carvão. Ela sua, sente frio, arranha a pele, estala as juntas e não reclama da vida miserável e sem perspectiva. Pelo contrário, ainda ri de histórias de gradadoras que encontram forças para trepar na sufocação do buraco negro.

Ela nasceu de Émile Zola em Germinal. Mas Catherine com nomes diferentes e corpos e rostos que denunciam as condições desumanas e desrespeitosas que lhe são imputadas vemos aos montes. Não é preciso ir longe. Bastou espiar pela janela para conhecer quem poderia ser o pai dela. Um senhor de 70 anos, magro, que não devia estar com fome, mas que, sem dúvida, a expressava; um farrapo humano que faz “bico” em uma construção para “completar a renda da família”.

Cheguei atrasada na reunião e ninguém ameaçou descontar três francos do meu salário. Trabalhei o dia inteiro sem ter a preocupação de encher a quantidade mínima de vagonetes que garantiriam minha permanência sobre a terra. Ainda assim, no fim do dia, reclamei do meu cárcere privado.

Um comentário:

Rogério disse...

Bom texto, garota! Beijo