sábado, 20 de junho de 2009

Paulo, ela é minha mulher

Augusto, um médico recém-formado e, por essa razão, mais aplicado que qualquer veterano, salva Emília da morte aos 14 anos. Feita mulher bonita de atos e atitudes caprichosas, ressaltados pela riqueza de seu dote, ela humilha o doutor e sua devota paixão, a ponto de despertar no leitor o desejo insano de saltar para dentro do livro, sacudi-la e exigir que ele lhe reserve o único sentimento que Mila merece: o desprezo.

Mas o final da ficção não pode descrever a vida contemporânea. Não porque seja ficção, mas porque o romance de José de Alencar vivia à época um novo estilo artístico importado da França. O Romantismo estava na moda, mas também e, talvez, principalmente, porque essa era a alma do escritor, Diva e outros romances do autor estão impregnados de subjetivismo, exaltação dos sentimentos e idealização do amor. Conceitos que não caducaram de todo porque alguns fora de contexto se não os sentem, creem na existência ainda que parcial deles.

Homem que faz Dr. Augusto dizer à Mila, já exaurido de força e quase sem esperança, que "o amor nasce de si mesmo, de repente, sem que o suspeitem e que se ele viesse quando o chamamos e desaparecesse à vontade, não era o que é, uma fatalidade" sofre e demora anos para se recompor quando, na vida real, não é correspondido pela jovem Chiquinha Nogueira da Gama. José de Alencar só encontra seu grande amor aos 35 anos, idade avançada para o século XIX, em que mesmo a classe média morria de tuberculose, como ele, 13 anos mais tarde.

Em nome da fé dos que se mantêm crentes, oxalá que com Georgiana Cochrane, com quem teve seis filhos, Alencar tenha saciado o desejo do amor puro, dedicado e lírico e dito algo do Dr. Augusto e ouvido algo de Mila.

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