sábado, 6 de junho de 2009

Cachorros da minha vida

Os que correram para ler este texto imaginando que eu trataria dos cachorros, safados, cafajestes, sem vergonha que passaram pela minha vida serão frustrados. Primeiro porque tive a sorte de me relacionar com homens se não todos maravilhosos, pelo menos bons. Exceção à regra não era cachorro, mas coisa do Demo (Vade retro, Satanás!). Segundo, porque se aqueles, os safados, tivessem passado pela minha vida, não teria eu o trabalho de escrever sobre eles. Refiro-me, portanto, aos cachorros de quatro patas que latem e se tornam membros de nossa família.

Quando criança, aos 4, meus pais tinham uma cadela epiléptica, uma mistura de pequinês com bassê que vivia apartada de mim. Na verdade, eu dela. Laika nunca ultrapassou a faixa que nos separava, mas eu, desobediente, precisava ser contida por uma cerca improvisada. Não guardo muitas recordações, lembro apenas de que invejava, inveja de criança pequena, a liberdade que ela tinha de fazer o que bem entendesse no quintal de casa.

Depois da morte de Laika não tivemos mais cachorro e na tentativa de substituir a falta de um animalzinho doméstico, mamãe trocou umas garrafas velhas por um pinto, que eu tratava feito cachorro (muitas mulheres acreditam que essa é a forma merecida de um pinto ser tratado...). Um pinto que foi crescendo – redundante dizer, eu sei; o estado natural de todo pinto que se preze é crescer – e virou galinho garnisé que me bicava. Super Mãe entrou em ação e pediu que vovó Ione desse um fim às façanhas do pinto abusado com uma boa caldeirada. Dona Sandra jura de pé junto que não comeu o pinto, nem deixou que eu o experimentasse. Como minha avó não está mais aqui para recontar a história, fica com a fama.

Já adolescente, depois de muito insistir, convenci mamãe a levar um Cocker Spaniel pra casa. Lindos são eles com aquelas orelhas grandes e olhar de coitado. Só olhar. Porque de coitado um Cocker não tem nada. Kenny que o diga. A expressa concordância de Dona Sandra em adotar o bichinho incluiu uma intensa negociação, em que coube a mim o dever de limpar todas as cacas e espiar regularmente as porções de água e ração. Limpei a primeira vez com nojo, mas de bom grado. A segunda, ainda com nojo. Lá pela décima, sem nojo, mas já com ares de tédio. Após a vigésima limpeza, estava eu convencida do mau negócio que fizera, até porque as cacas se tornaram densas e freqüentes.

Num belo sábado ensolarado no Rio, passamos o dia fora e Kenny reinou absoluta solta em casa. Como toda adolescente de verdade e não só de fachada, estava irritada porque queria ter chegado mais cedo para me aprontar com calma e sair com as amigas. Entre resmungos, entro em casa e vejo o que parecia uma daquelas cenas de filme de terror: bonecas decapitadas, ursos de pelúcia com as tripas pra fora, travesseiros sem miolos, quilômetros de papel higiênico dos banheiros rolando pela casa, sapatos comidos e latas de lixo reviradas. Adeus, noitada de sábado! Adeus flertes platônicos com um menino horroroso que estudava comigo, mas que meus olhos viam nele a reencarnação de Apolo. Adeus, Kenny! Sim. Adeus, Kenny! Não fui pra canto nenhum, limpei toda a bagunça e decidi que daquele dia em diante não queria nunca mais saber de cachorro. Kenny só não perdeu a vida mansa que tinha lá em casa porque mamãe resolveu transferir a titularidade do contrato de posse.

Dez anos depois veio Ralph, um lindo e enfezado dobermann, adquirido para defender nosso patrimônio. Ele passou apenas a primeira infância em casa e logo foi transferido para seu posto de trabalho. Ralph crescia mais do que meu irmão e eu juntos e precisava ser adestrado. Estive em alguns treinos com minha mãe, mas fui reprovada. Toda vez que Ralph fazia alguma burrice e olhava com cara de pateta pra mim, em vez de eu manter a postura e a voz de comando, conforme orientava o instrutor, eu ria e Ralph ficava mais idiota que nunca, pulando em cima de mim com toda a força daquelas patas que quase me derrubavam. O instrutor, enfurecido, foi categórico: ou bem me adestrava ou educava Ralph. Como eu já estava com 20 anos e minha mãe, apesar de todos os esforços, falhara em sua missão, resolveram os dois que Ralph teria prioridade.

Comecei a trabalhar, deixei o Rio de Janeiro e dia desses ao chegar em casa de visita encontro no meu quarto uma bola de pelos encaracolados com um sininho no pescoço. Todos só tinham olhos, sorrisos e atenções para o mascote da casa: Nicky, um poodle. Que raiva fiquei daquele camundongo preto. Quase morri de tanto ciúme. Mas o xereta era tão cativante que logo me rendi ao seu charme de lord inglês. Nicky era um irmão mais novo, a ponto de mamãe ver em nós semelhanças. Dizia que ele era magro como eu, enjoado pra comer e metido, sempre com o focinho arrebitado.

Quando Nicky morreu, choramos todos. Mamãe passou semanas inconsolável e eu fui trabalhar com os olhos inchados. As lágrimas escorriam sempre que vinha à mente a recordação de alguma de suas façanhas, como o dia em que ele botou um ladrão pra correr em Galinhos. Quem não gosta de bicho, não entende essas coisas. Mas, cá pra nós, quem não gosta de bicho deve ter ficado lá no primeiro parágrafo, decepcionado com o que julgava ser uma fofoca de ex-namorada ressentida.

Por último chegou Lupício Rodrigues, candango da gema, vindo diretamente da feira de filhotes do Gilberto Salomão. Nunca mais caio na tentação de passear nessas feiras. Lupi é um Shih Tzu arretado, cabra macho feito o pai, que em muito pouco corresponde ao que a criadora informou sobre a raça. Ele é genioso, rosna quando contrariado e costuma impor sua vontade em 99 por cento dos casos. Ordenar que ele não faça algo é o mesmo que chamá-lo de bonito.

Entre rupturas e separações, Lupi foi levado pela brisa para o Nordeste curtir aquelas águas mornas e límpidas e se esbaldar com tapioca e queijo coalho. Depois de dois anos sem vê-lo, eis que a pestinha aportou neste fim de semana aqui em casa. Veio resolver uns assuntos pendentes no Ministério da Cachorrada Nacional e passará uns dias comigo. Se não fosse por uma reação alérgica ao calmante que tomou para embarcar – ele tem pavor a aviões, acentuado depois do misterioso acidente com o vôo 447 da Air France –, eu não teria chegado ao fim desse relato porque, com certeza, ele já teria reclamado a minha atenção para passear, afinal, o que não falta no parque é cadela gostosona dando sopa. E meu cachorro é homem!

2 comentários:

Antônio Pedro disse...

O que será que aconteceu com a Viviane que me acusou de ser machista nos coments da Livraria da Travessa? Isso pq é um cachorro, e se fosse um filho homem?

Viviane de Paula Viana disse...

Mas, Antônio, ela continua aqui, escrevendo sobre cachorros e fazendo sátira. Bj