terça-feira, 9 de junho de 2009

Alô, alô, marciano




A procura por Um antropólogo em Marte me conduziu à Cultura no domingo e a Cultura me levou à sinestesia dos sentidos mais profundos numa palestra musical do Geriatric Blues Band.

Posso viver sem televisão – e isso para uma jornalista que já trabalhou em tevê parece absurdo, posso viver sem fogão e até sem computador, mas não vivo sem música. Indescritível o prazer de uma boa canção. É como se, em termos religiosos, eu expurgasse todos os pecados e entrasse em comunhão com o Deus maior.

B.B. King dizia incessantemente “Everyday I have the Blues” e escrevo, sem nenhuma originalidade, que todo dia eu tenho a música para me transportar quando o medo assola, para me enlevar quando a tristeza sobrevém, para me confortar quando a solidão se impõe.

No livro de Oliver Sacks há um capítulo, O último hippie, que conta a história de um jovem que é operado tardiamente de um tumor e que, por isso, as sequelas – cegueira e incapacidade neurológica e mental – não são mais reversíveis. O rapaz apaixonado por música, especialmente as bandas de rock dos anos 60, apesar da amnésia e do retardamento, lembra com perfeição as canções de 1964 a 1968.

Ele podia permanecer inerte, num estado de vazio absoluto, durante horas, a menos que fosse estimulado, sobretudo, por música. De acordo com Sacks, era como se ele recuperasse os sentidos e despertasse para a vida. A música emocionava-o e fazia com que ele entrasse em contato com sentimentos e significados aos quais, no geral, não tinha acesso.

Levado a assistir a um show do Grateful Dead, o rapaz parecia, segundo o médico, uma pessoa dita normal, "como se a música estivesse insulando nele sua própria força, sua coerência, sua alma".

Assim me senti naquele auditório ao ouvir clássicos do Blues, com uma sensibilidade descomunal.

Um comentário:

Ricardo disse...

A música faz isso em mim também.