terça-feira, 5 de maio de 2009

Mazela nossa de cada dia




A possível pandemia de gripe suína, melhor dizendo, A H1N1 – nome politicamente correto que não ofende a categoria e evita que sejamos processados por um colegiado de porcos minoritários – está na pauta da imprensa assim como o arroz no prato dos brasileiros. A ansiedade em consequência do risco de proliferação em massa do vírus e o receio distante do contágio me fazem lembrar certa crônica de João do Rio, pseudônimo mais famoso de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto.

Coincidências à parte, também nascido em 5 de agosto, em 1881, João do Rio foi o primeiro jornalista profissional de que se tem notícia no País. Antes dele, o comum era ser advogado ou funcionário público que escrevia para jornais por gosto, para complementar a renda ou por ambos os motivos. Foi ele ainda o pioneiro do que conhecemos hoje (ou devemos conhecer) por reportagem; um texto elaborado a partir de situações observadas in loco. Suas crônicas-reportagens, com textos curtos e diálogos vivos, renovaram a imprensa brasileira e o fizeram, apesar do ostracismo atual, popular à época. Tanto que seu enterro, em 1921, reuniu 100 mil pessoas, um décimo da população da então capital.

Em A Peste, ele trata da epidemia de varíola, doença também chamada de bexiga vermelha, no Rio de Janeiro no início do século XX. João do Rio conta o pavor de contrair a varíola que manifestavam uns, se precavendo com quinino e anti-sépticos, e certa indiferença de outros que evocavam ditos populares sobre ser o peru o único coitado a morrer de véspera e que se morre quando se tem que morrer.

No conto, porém, o personagem inicialmente descrente passa a se interessar pela doença quando sente a proximidade do mal. E entende a extensão do problema de saúde pública ao visitar um amigo no hospital, quase irreconhecível:

“Eu tinha diante de mim um monstro. As faces inchadas, vermelhas e em pus, os lábios lívidos, como para rebentar em sânie. Os olhos desapareciam meio afundados em lama amarela, já sem pestanas e com as sobrancelhas comidas, as orelhas enormes. Era como se aquela face fosse queimada por dentro e estalasse em empolas e em apostemas a epiderme”.

Lembro-me do conto porque receio ser pega de surpresa pela indiferença arrogante – ou crença cega no poder de controle dos órgãos teoricamente competentes. Lembro-me do conto porque receio ser contagiada pelo pânico que alguns irresponsáveis parecem querer disseminar, como a dita “reportagem” veiculada hoje (e retirada da internet em algumas horas) sobre o contágio da gripe por meio do manuseio de dinheiro. Lembro-me do conto porque cada época tem seus males; alguns mais modernos e resistentes, outros provincianos que remontam à fase pré-jornalismo.

Um comentário:

Daniele disse...

Achei teu blog numa pesquia do google, muito bons textos. Parabéns