segunda-feira, 20 de abril de 2009

Tarado na Travessa

– Viviane! Viviane! Ecoa a voz dela em tom de alerta na seção infanto-juvenil da Livraria da Travessa.

Viro-me no mesmo instante, entre a curiosidade e a preocupação:

– O que foi, mãe?




Dona Sandra faz caretas que apontam na direção do meu vestido e compreendo que, no afã de encontrar “Flor do Cerrado: Brasília”, algo que escapou à fazenda branca fora revelado inadequadamente ao público.

Encontro o título de Ana Miranda que a atendente novata já dava por esgotado e retorno à poltrona onde deixara minha mãe. Colada a ela, procuro entender a extensão do estrago da minha falta de postura.

É quando tomo conhecimento de que os tarados estão por toda a parte, na pele de chefes de família, que tomam seus filhos pelas mãos e os conduzem a livrarias, como pais cultos e zelosos pela educação da cria.

Minha mãe estava distraída com as virtudes da linhaça até que uma voz persistente de criança tenta, em vão, chamar a atenção do pai. Depois de ouvir repetidamente a palavra pai, quase como uma prece, Dona Sandra resolve despregar os olhos do livro para verificar o que fazia o pai do filho perdido que não respondia àqueles apelos.

Não sem espanto, minha mãe constata que o motivo de tamanho transe não era Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve e menos ainda João e Maria, mas o meu vestido. Na verdade, a ausência de vestido para cobrir uma parte do meu corpo que se desnudara. Antes de me chamar à razão, Dona Sandra fita o pai tarado repreendendo-o apenas com o olhar, da mesma forma que fazia quando meu irmão e eu éramos crianças, como se dissesse a ele: “Se tens filha, um dia ela crescerás e tu, Lobo Mau, sofrerás na pele”. Olha que praga de mãe, pelo menos da minha, nunca falha.

O pai deve ter se escondido com o filho na seção de auto-ajuda, porque não encontramos vestígios deles nem no caixa. E pela calçada de Ipanema fomos às gargalhadas.

5 comentários:

Anônimo disse...

Vivi, sua vida dá um livro!!! Beijo, Carmem.

Antônio Pedro disse...

Com ou sem filho, tarado ou não, eu olharia. A gente é macho, pô!

Viviane de Paula Viana disse...

Oi, Carmem! O que não falta na minha vida é história pra contar. Ainda bem. Pelo menos o blog não corre o risco de morrer por inanição. Beijos

Rê disse...

Tá bem na fita, Nêga. De Rita Hayworth a Marilyn Monroe! Saudade... Bj

Viviane de Paula Viana disse...

Ô discurso machista... Tem vergonha na cara, não, Antônio? Beijo