terça-feira, 27 de junho de 2000

"O mestre tem obrigação de formar"

Um dos maiores intelectuais em atividade, Edgar Morin, 79 anos, que tem mais de 50 livros publicados, surpreende pela abrangência do seu repertório – da Antropologia à Biologia. Professor aposentado da École Pratique de Hauts Études, de Paris, ele é o autor da teoria do pensamento complexo. O estudioso esteve no Rio de Janeiro no início do mês para participar de um ciclo de conferências em comemoração aos 98 anos da Universidade Cândido Mendes. Na ocasião, ele falou para um auditório lotado sobre “Como prever um Futuro Imprevisível”, “Reforma do Pensamento da Educação” e “Complexidade e Mundialização”.



Para o senhor, que é considerado o papa do pensamento complexo, qual o futuro do conhecimento?
Não sou um profeta, mas espero que o conhecimento complexo possa ser esmiuçado e desenvolvido. Isso permitiria a cada indivíduo assumir melhor o seu destino individual e coletivo em sua nação e, também, o da espécie humana. Mas não estou convicto de que o conhecimento vá conseguir generalizar-se. Afinal, o futuro é tão incerto, que fica difícil arriscar qualquer previsão.

Qual sua impressão sobre os rumos da Educação brasileira?
Apesar de não ter subsídios suficientes para situar a Educação no Brasil, acredito que as perspectivas são muito boas. Existe no País uma aspiração em direção às reformas educacionais básicas necessárias para o desenvolvimento e crescimento de uma nação.

Por que faz críticas severas à fragmentação do conhecimento?
Tentar analisar o todo através de uma parte torna os espíritos míopes. É como enxergar apenas uma cor do arco-íris. As conseqüências podem ser irreversíveis.

A televisão é acusada de incitar a violência entre os jovens. Qual o papel do educador frente a essa questão?
A função dos mestres não é apenas cumprir a carga horária e o conteúdo programático. Os educadores devem, a partir do teor de suas classes, explorar temas afins. Em uma determinada aula, o professor pode, por exemplo, criar um espaço para debater os programas de televisão. Os estudantes devem ser esclarecidos de modo que a mídia seja interrogada e vista sob um prisma crítico. O que acho ruim é a posição de se sentir em uma cidadela atacada. Os jovens precisam perceber como são construídos os programas: sua montagem, estrutura e funcionamento. Outro exemplo são as telenovelas, cuja audiência é significativa. Por que elas apaixonam e atraem? Porque falam, a sua maneira, de problemas que todos nós sofremos: amor, ódio, ciúme, coincidências. Particularmente, gostei muito de Dona Beija. Aliás, sou um grande admirador da atriz Maitê Proença (risos). Mas, enfim, em vez de ficar criticando a influência persuasiva da mídia e culpá-la pelo aumento da violência, devemos abastecer nossos jovens para que possam assistir à programação criticamente.

Nesta época de globalização, é importante para a sobrevivência profissional o domínio de outra língua?
É imprescindível que as pessoas saibam três ou quatro línguas. Entendemos melhor o ponto de vista de outro povo quando conhecemos sua língua. Além disso, precisamos estar à altura de um novo mundo de comunicação que está sendo criado.

As crianças estão sendo atraídas pelos computadores antes de aprenderem a escrever. Quais os efeitos do uso prematuro das tecnologias?
A tecnologia agiliza processos e, principalmente, a busca pelas informações. Dessa forma, criam-se nos usuários novos tipos de percepção e ritmo. Não vejo com pessimismo o uso das tecnologias aplicadas ao conhecimento. O problema é a falta de diálogo, a compartimentalização do conhecimento. As questões mais profundas de nossa sociedade não estão na mídia, mas no processo que nos torna cada vez mais dependentes e em busca do dinheiro, da sobrevivência.

Por que o senhor diz que a brincadeira é uma forma de aprendizado?
A ludicidade é sempre muito interessante. Quer seja num jogo de cartas, quer seja no futebol, as crianças aprendem a interpretar o silêncio, as atitudes do outro parceiro, a situação que está sendo proposta naquele momento. Além disso, as brincadeiras aguçam a imaginação.

O senhor afirma, em um de seus livros, que a história da Europa é marcada por lutas entre nações. Hoje, a tendência é de reunificação?
Justamente porque as guerras entre as nações conduziram a Europa quase ao suicídio é que muitos países quiseram ultrapassar esses conflitos com a criação da Comunidade Européia. É uma resposta aos desastres do passado.

Como deve ser a Educação no próximo século?
É preciso que ela tenha a idéia da unidade da espécie humana, sem encobrir sua diversidade. Há uma unidade humana, que não é dada somente pelos traços biológicos do ser, assim como há a diversidade marcada por outros traços que não os psicológicos, culturais e sociais. Compreender o ser humano é entendê-lo dentro de sua unidade e de sua diversidade. É necessário conservar a unidade do múltiplo e a multiplicidade do único. A Educação, e esse é o desafio que se coloca para os professores do futuro, deve ilustrar o princípio de unidade e de diversidade em todos os seus domínios.


[Entrevista com Edgar Morin, por Viviane Viana. Publicada no jornal O Dia, em 27 de junho de 2000]

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