quinta-feira, 12 de março de 2009

Levantou poeira



O repórter pergunta:
– Do que você gosta?
Ivete Sangalo responde:
– Gosto de ariar panela.
– Do que você não gosta?
– Não gosto de ler.

As palavras reverberam e me pergunto quantas televisões estão ligadas naquele momento e quanta gente se identifica com a resposta da cantora.

Não há estudo sério que acompanhe o índice de leitura no Brasil. O recorte de público da pesquisa de 2007, por exemplo, é diferente do utilizado em 2008, o que dificulta o diagnóstico de desempenho. Sabe-se, porém, que o brasileiro lê, em média, dois, no máximo, três livros por ano, incluídos os didáticos! Nos Estados Unidos, o índice é de 10 livros. Na Inglaterra, nove. Na França, oito.

O que é mais doloroso: a maioria do povo não lê nenhum livro em 12 meses. Isso porque quem gosta de ler, lê muito e eleva a média nacional.

Quem não gosta de ler e tem vergonha de admitir o fato, usa a surrada desculpa da falta de tempo, mas se você insistir com a prosa, logo descobrirá a farsa. Farsa, sim. Mesmo que inconsciente.

Durante seu indigesto programa matinal e a pedido do Louro José, que se dependesse de mim seria recolhido pelo Ibama, Ana Maria Braga abre a bolsa para mostrar o que carrega. O objetivo era descobrir se ela é uma burguesinha. Como se precisasse de provas... Mas, enfim, retira um audiobook, logo justificado pela falta de tempo para ler. Na mesma hora, minha parabólica emite o sinal de alerta. Segundos depois, ela mostra um videogame portátil e explica que o brinquedo é útil quando precisa esperar, para matar o tempo.

A essência da questão é por que as pessoas não gostam de ler? Talvez por falta de hábito. Talvez por falta de estímulo quando pequenas. Talvez porque não tolerem o encontro com elas mesmas. Talvez porque não se permitam fantasiar. Talvez porque não queiram enxergar. Talvez porque desconheçam a emoção de uma boa leitura. Talvez porque não tenham sido bem alfabetizadas.

Em 2000, tive o prazer de entrevistar Marina Colasanti para o jornal carioca O Dia. A escritora defende a criação do hábito da leitura desde a infância: "Uma criança que é educada lendo, que descobre o quanto pode subtrair da leitura prazer, entendimento e valores essenciais, vai levar consigo vida afora esse patrimônio". Para Colasanti, "há o livro certo para o momento certo". "Ler o que dá prazer é uma regra fundamental. Se a leitura estiver desagradável, feche o livro e pegue outro. É melhor do que fazer uma leitura mecânica", aconselha.

Hoje, apenas em grupos muito seletos se costuma perguntar o que o outro está lendo e o último livro lido. No geral, a pergunta é feita por alguém que tem a intenção velada (ou descarada) de constranger. Ou, então, é algum desavisado da nobreza que acaba de chegar a Versalhes, como meu amigo Maurício.

Moral dessa história: se eu não tivesse comprado o microondas, mandaria a leiteira pra casa da Ivete.

8 comentários:

Anônimo disse...

Vivi, vc mudou o texto? Não tinha Marina Colasanti da primeira vez que vi. Well well, será que estou cega?
Carmem

Viviane disse...

Acrescentei esse trecho, sim, Carmem. Mais uma das vantagens de escrever em um blog...

Anônimo disse...

Vc anda por aí comprando Boa Forma???????????? O que a academia faz. Boa sacada do texto. Bj, Marcelo

Leo Menezes disse...

Concordo plenamente, gata. Saudades! Quando vens ao rj?

Viviane disse...

Leo, adorei saber que está aqui! Muita, muita, muita saudade de você. Chamando-me de "gata" bateu um saudosismo...Voltei no tempo. Fui parar lá atrás, quando nos conhecemos antes dos 20 no curso de foto. Ai, ai... Beijos

Viviane disse...

Menos, Marcelo. Não ando por aí comprando Boa Forma. Comprei um exemplar. E justamente com quem na capa? Claro que ainda não tinha ouvido a declaração bombástica dela. Ah, você tem razão: a academia faz milagres. Em todos os sentidos! Beijos

Ana disse...

Adorei! Vou andar te visitando por aqui. Bjs no coração!
Ana Virgínia

Viviane de Paula Viana disse...

Será um prazer receber sua visita, Ana! Beijos,