terça-feira, 24 de março de 2009

Idos à Lapa (Penúltima Parte)

Helena tentou esquecê-lo uma dezena de vezes e sempre fracassava. Conheceu outros homens, namorou, mas nunca esteve realmente inteira em nenhuma relação. Apesar de todo o tempo transcorrido desde aquele encontro no Rio de Janeiro, achava que um dia Luiz Bernardo se daria conta do castigo demasiado severo que impunha a eles.

Perdida na noite escura e silenciosa do seu quarto, ela rezava baixinho para que um anjo ou o acaso unisse os dois e fantasiava a revelação de todo aquele sentimento que ardia nela. Nos momentos de desesperança, praguejava os norte-americanos, que teriam introduzido a noção de que a infância deve ser um período de inocência, e desejava ter nascido na época em que a didática era outra, nos tempos em que as crianças não eram poupadas da dureza da existência, para crescerem adultos menos iludidos e mais preparados para as contingências da vida.

Em vez de contos de fadas, pensava, deveria ter lido histórias de guerra, poder, miséria e degradação humanas. Assim, quando adulta, não acreditaria que na vida real pode existir amor como o de Florentino Ariza na literatura de García Marquez, que não deixara de amar Fermina Daza um único dia sequer durante mais de 50 anos, apesar de a então senhora tê-lo expulsado de sua vida. A bem sucedida perseverança obstinada de Florentino levava os leitores incautos e sonhadores, como Helena, a crer nos finais felizes.

Ao contrário de Florentino Ariza, ela não era persistente a ponto de correr o risco de jogar cinco décadas de vida fora. Não porque estivesse em dúvida sobre seus sentimentos. Mas porque nenhum amor pode ser maior do que aquele que uma pessoa deve sentir por si mesma.

4 comentários:

Anônimo disse...

Vi, na boa., acho que está perdendo tempo aqui. Deveria escrever um livro. Você é ótima nisso, acredite. Beijos do Gus

Anônimo disse...

Vivi, não quero saber de finais infelizes também não. Vê se junta esses dois! Por onde anda? Saudade Carmem

Viviane disse...

Obrigada pelo carinho, Gus. Quem sabe um dia? Precisaria me disciplinar e organizar muito bem o meu tempo. Beijos

Viviane disse...

Ih, Carmem, não foi dessa vez... Saudade de você também! Beijos