domingo, 22 de março de 2009

Idos à Lapa (Parte IV)

Luiz Bernardo sempre teve dificuldade para fazer escolhas, desde a juventude. A renúncia inerente a toda escolha perturba sua alma de tal forma que o imobiliza, como uma presa, ainda que livre, sob o olhar dominante do predador. Se era difícil decidir-se por uma mesa nova, o que fazer com o rumo de sua vida?

Ele tentava empregar alguma lógica cartesiana em suas decisões e com relação às escolhas sentimentais não era diferente. Calculava os potenciais riscos e as probabilidades de acerto. A maturidade lhe ensinou a ser pragmático, enfatizava. Mulheres mais novas como Helena, pela experiência que tivera, deveriam ser evitadas, principalmente se essas não tivessem filhos, porque não compreenderiam as ausências de um pai dedicado. Seus sentimentos precisavam, antes, responder ao questionário que laboriosamente engendrou para terem vazão.

Não é de se estranhar sua angústia e insatisfação. Ao mesmo tempo em que sentia-se relativamente moço e era assaltado por um impulso de mudança, pensava no casamento falido, na vida de solteiro que levara e nas tantas frustrações até encontrar sua atual companheira, que o apoiava e que, por ter filhos, entendia as festas canceladas de última hora, os filmes não vistos no cinema e os almoços de domingo em família.

Gostava de Helena, de seu humor, de sua inteligência afiada, de seu charme e boa educação, amava Helena escondido dele mesmo, mas as qualidades dela e o que ele sentia não eram suficientes para enfrentar o ônus de toda a mudança e o peso das conseqüências. Helena, divagava ele, poderia traí-lo, apaixonada por um homem da idade dela; Helena talvez não estivesse disposta a abdicar de sua agitada vida social; Helena poderia não se relacionar bem com suas filhas; Helena talvez quisesse voltar a morar em sua cidade natal; Helena não sabia o que era ter filhos.

De verdade do que ele imaginava, apenas a última sentença: Helena não sabia o que era ter filhos e jamais saberia, a menos que adotasse uma criança. Durante o período em que esteve casada, levou uma gravidez até o quinto mês, quando um aborto espontâneo a fez perder o futuro bebê e também a possibilidade de ser mãe algum dia. Horas depois de ter passado mal e de ter sido levada às pressas, sangrando, ao pronto-socorro, recebia as duas notícias que abalariam as certezas que julgava ter até aquele momento de sua vida.

A lógica de Luiz Bernardo o traíra porque, não somente, Helena entenderia sua indisponibilidade, como também desejava participar desse núcleo familiar, uma vez que ansiava encontrar um homem que já tivesse realizado o desejo de ser pai. Luiz Bernardo confiava tanto em seu julgamento que afastava com certa facilidade Helena de seus pensamentos, convencido de que aquela união estava destinada ao insucesso.

Mas o que é o destino, esse a quem se atribui poder sobre todas as coisas, quando confrontado com a vontade do sujeito ativo? Luiz Bernardo era livre para fazer escolhas, fez uma escolha, por mais que evitasse assumir para ele mesmo que a decisão fora tomada, e por ter escolhido – não pelo destino – se autoflagelava de tempos em tempos, principalmente quando a falta de relação amorosa se tornava evidente em sua pseudo-relação amorosa.

2 comentários:

Anônimo disse...

Vivi, fantástico o texto! Estou curiosa pelo final. Bjs, Valéria.

Viviane disse...

Obrigada, Valéria. Espero que tenha gostado do final da história. Beijos