segunda-feira, 16 de março de 2009

Idos à Lapa (Parte I)




Quando, naquela manhã de outubro, Helena Casagrande viu chegar Luiz Bernardo Álvares, não imaginava o que o futuro lhe reservava. Depois de os fatos sucederem, é quase impossível não pensar o que teria sido se a vida tivesse feito diferente.

Luiz Bernardo está 10 anos à frente de Helena e não é necessariamente bonito. Latino, estatura mediana, cabelos grisalhos que, para homem, são longos e quase sempre desajeitados, apesar de seu senso estético em tentar dissuadi-los do ouriço. Queixo sinuoso e olhos de quem já foi contrariado pelo acaso; mesmo assim, olhos mansos que por vezes se revelam apáticos. Carece-lhe, ao menos na aparência, certa paixão, que ele demonstra ter apenas por seus dois amores: as filhas.

Helena, ao contrário, transmite a falsa impressão de que sempre conservará o viço da juventude, tamanho seu entusiasmo, tendo a mocidade lhe escapado há alguns anos. Aprendeu a sobreviver rindo de suas travessuras e ausências. O refinamento vulgar no que tem de simples, os modos e o porte esguio fazem dela uma mulher se não atraente pelo menos intrigante, o que, na segunda hipótese e numa observação mais direta, conduz à primeira.

Ele foi o último a chegar numa sala asséptica e suspensa no bairro da Lapa, berço da boemia carioca e famoso pela arquitetura; a começar pelos Arcos da Lapa, construídos para funcionar de aqueduto nos tempos do Brasil Colonial e que ligam o morro de Santa Teresa ao centro da cidade, servindo de via para os bondinhos resistentes à pós-modernidade. Naquela primavera, que na cidade do Rio de Janeiro perde sua característica de temperatura amena, com picos de 39ºC, Luiz Bernardo estava úmido, em parte devido ao calor e ao clima tropical atlântico, em parte porque tentara evitar o atraso.

Helena o fitou com curiosidade. Em princípio, não simpatizou com seu comportamento distante e soberbo. Aos olhos dele, faltava a ela corpo de mulher que era. Depois, de alguma forma inexplicável, houve interesse recíproco e, ao percebê-lo, Helena, coquete, tratou de alimentá-lo.

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