quarta-feira, 25 de março de 2009

Idos à Lapa (Parte Final)

Helena fora enviada à Itália para integrar um comitê internacional. Durante três dias, os representantes indicados, reunidos em Roma, deveriam propor diretrizes que norteariam uma política reguladora mundial. Consultada sobre a viagem, preocupou-se com a responsabilidade da missão; sabia que estava à altura de sua capacidade, mas isso não aliviava as inseguranças. De qualquer maneira, não titubeou. Seduziam-na os desafios e aquele era apenas mais um.

Emendou os dias de trabalho, em que estreou com brilhantismo segundo os colegas que lá fez, com as férias vencidas e teve uma semana de puro prazer. Nos dias de comitê, devido à carga de leitura ao final de cada sessão, não sobrava tempo para quase nada e comia às pressas nos restaurantes próximos ao centro de convenções. As incursões às casas mais cobiçadas, ainda que rápidas, apresentaram uma Roma bárbara do ponto de vista culinário. Línguas e tripas regadas por um molho espesso cor de ferrugem cobriam as mesas dos comensais, e não adiantava seu esforço em desviar o olhar porque estavam por toda parte, como se incorporadas à paisagem.

As férias, que tiveram início em um sábado, foram deliciosas. Já acostumada ao olhar daqueles pratos rústicos, deleitava-se com linguiças condimentadas, bolas de mozzarella defumada, pizzas, gelato de arroz doce e, claro, tiramisù. Gostava muito de Paris, mas ficou estarrecida diante do Coliseu, da Fontana di Trevi, do Panteão e do imenso chafariz em homenagem aos grandes rios do planeta na Piazza Navona.

Nos últimos dias de viagem, Helena esteve em Florença e Veneza, onde num passeio de gôndola refez o percurso mais recente de sua vida e Luiz Bernardo impôs sua presença a despeito do cenário de um filme de Bergman. Naquele momento, no zigue-e-zague de águas gordurosas do Adriático que contornam os alicerces dos prédios desbotados, tomou uma decisão e ansiava regressar ao Brasil para cumpri-la.

Helena não sabia ainda, porém não havia mais futuro para aquela união. Ninguém é senhor do tempo, nem do seu próprio. Luiz Bernardo fora diagnosticado com uma doença rara, padecia em silêncio e lamentava por tudo o que não tinha sido.

4 comentários:

Anônimo disse...

Pior que é assim mesmo com tudo em nossas vidas. Torci para que eles se reconciliassem mas o primeiro parágrafo do primeiro capítulo deixava certo que isso não aconteceria. Não sou machista, mas fiquei com mais pena dele porque ela tem tempo para achar um novo amor.
Inês Carvalho

Anônimo disse...

Vivi, imagino se não fosse um blog você poderia escrever muito mais. Um amigo seu escreveu acho que no capítulo anterior que deveria pensar em um livro, o que concordo. O meio limita muito e a gente percebe que você poderia ter escrito mais. Eu vou no lançamento e compro o livro! rs
Beijo, Rê.

Viviane disse...

Oi, Inês. Você bem observou: denunciei que o fim poderia não ser tão romântico na primeira parte da história.
Entendo a solidariedade com o personagem Luiz Bernardo, que teve uma morte redentora. Se vivesse, sua impressão sobre ele seria diferente.
Abraço e obrigada pela presença!

Viviane disse...

E como limita, Rê. Tive que cortar muitos trechos e, inclusive, suprimir capítulos. Ninguém gosta de ler textos longos na tela do computador, muito menos histórias seriadas com inúmeras partes. Foi difícil pra mim dosar tudo isso, principalmente porque os capítulos nasciam dia após dia. Pretendo melhorar a mão da próxima vez. Mas preciso de um tempo. Enquanto isso, voltarei às crônicas sobre assuntos variados.
Obrigada pelo apoio, amiga!