segunda-feira, 30 de março de 2009

Encontro com Neruda



Assisto intrigada aos vestibulandos que prestam concurso para três ou mais cursos. No último ano do Ensino Médio, pensei em algumas possibilidades que não Jornalismo; todas remotas. Foi um período angustiante em que achava meus amigos polivalentes, seres dotados de capacidades múltiplas e inteligências diversas, enquanto eu poderia ter apenas uma profissão. E sabe-se lá se eu tinha mesmo vocação.

Já dentro dos muros da universidade, na aula inaugural, escuto do diretor que o aspirante a jornalista deve ter tamanho apreço pela leitura e curiosidade que lê até bulas de remédio. Escapei por pouco. Morri de medo que em vez de bulas fossem manuais, que não proporcionam emoção como as bulas. Por essa e outras tantas razões só os leio em último caso, quando estou diante de um aparelho voluntarioso. Talvez os manuais caibam nas boas-vindas a calouros de áreas tecnológicas.

Mas ler bulas não era suficiente para comprovar minha aptidão. Poderia ser hipocondríaca. Divaguei em meus pensamentos e perdi os outros indícios de que teria escolhido a profissão correta elencados pelo nobre acadêmico. Fui acordada com as palmas entusiasmadas dos colegas, que devem ter se encaixado na descrição sumária.

Quatro anos depois de passeios no shopping (a UFRJ é vizinha do Rio Sul), cervejas no “Sujinho” (ponto de encontro da galera que sentava no fundo da sala, no campus da Praia Vermelha) e, claro, algum estudo, estava contratada na redação de um jornal. O início tem sempre um certo encanto, uma aura mágica, que dá lugar à realidade na medida em que o convívio cresce.

Subir o Santa Marta, encarapitado no tradicional bairro de Botafogo, zona Sul carioca, em plena perseguição policial; passar o dia 25 de dezembro em frente ao necrotério com os frigoríficos quebrados; chafurdar na lama no primeiro dia do ano para constatar os estragos de um forte temporal que atingiu a periferia da cidade na noite de Ano Novo produzem adrenalina e rendem muitas histórias, sem dúvida. Histórias pasteurizadas nas páginas dos jornais. Mesmo que você tenha sentido visceralmente a emoção de um caso, seu texto é igual ao de todos os colegas da concorrência, com menos ou mais detalhes tópicos.

Para muitos repórteres, isso não é problema. A sede de contar a história, de chegar na frente de centenas de pessoas, é um poderoso calmante à necessidade de realização. Comigo não foi assim. O comichão da escrita falava forte e me sentia refém das técnicas de redação.

Aprendemos a ir direto ao ponto, ao factual, e eu queria o “nariz-de-cera”. Aprendemos a responder a sete perguntas essenciais, e eu queria romancear. Como não me via em outro curso, não questionei a escolha. Se havia algum equívoco, estava ele na minha aptidão e o problema não era meu, mas de fabricação.

Naquela época de hormônios em ebulição e muitas dúvidas, em que me esforçava para vestir a camisa-de-força da profissão – e consegui –, gostaria de ter encontrado Pablo Neruda para tomar um pisco sauer na casa de Isla Negra e de ter ouvido a mesma crítica que o poeta fez a então repórter Isabel Allende quando tentou entrevistá-lo:

– Entrevista comigo? Nunca me submeteria a semelhante prova. Você deve ser a pior jornalista deste país, minha filha. Não consegue ser objetiva, se coloca no centro de tudo e desconfio que mente um bocado e que, quando falta notícia, você inventa. Por que não passa a escrever romances? Na literatura, esses defeitos viram qualidades.

5 comentários:

Anônimo disse...

Vivi, o que você tá aprontando? Quero saber de tudo. Beijo, Carmem.

Antônio Pedro disse...

Minha linda, esse mistério a trará de volta ao Rio??? Porque se for para ter você aqui pertinho da gente, faço até promessa...hehehe
Ótima sorte! Mas quem tem competência como você não depende da sorte. Beijos e abraço bem apertado

Viviane de Paula Viana disse...

Oi, Carmem. Oi, Antônio.
Não há mistério, mas algumas ideias. Por enquanto, somente ideias. Beijos,

Fábio Barros disse...

Não conhecia essa crítica do Neruda a Allende. Muito interessante. Onde a descobriu?
Beijos,

Viviane de Paula Viana disse...

Oi, Fábio. No livro "Paula". Beijos,