quinta-feira, 26 de março de 2009

Casal neura

Chego exausta do trabalho, após um dia corrido mas compensador, tomo um banho quente, engulo umas torradas com suco de laranja e deixo meu corpo morrer gradativamente no sofá enquanto estou no corredor de um hospital em Madri com Isabel (Allende), que reza pela recuperação de sua filha Paula. O silêncio acalentador da casa de saúde é interrompido pelo casal “neura”, meus vizinhos do andar de cima.

Não sei se eles casaram no religioso, com um padre católico. Se assim o fizeram, o representante de Deus deve ter bebido alguns cálices a mais de vinho e os feito jurar votos de fidelidade deturpados: “Eu, Marta, aceito você, Paulo, na tristeza, no ressentimento e na paixão cega e doentia, te odiando e fazendo de nossa vida um inferno até que você me mate”. Ao que Paulo responde “amém” e toma a parte que lhe cabe no sagrado compromisso do matrimônio.

Certa vez, tamanha algazarra, que começou com gritos e terminou com objetos lançados ao chão e pedidos de socorro de Marta, que acusava Paulo de ter-lhe quebrado o braço, mobilizou três viaturas da polícia. Homens armados entraram no prédio e ameaçaram arrombar a porta diante da morosidade de Paulo em abri-la, mas nenhum dos dois foi à delegacia prestar queixa. Depois do ocorrido, apagaram as luzes e se amaram ferozmente, enquanto os vizinhos tomavam chá de camomila.

Outra noite em que faltou luz no bairro e eu aguardava impacientemente o retorno na sala de casa, ouvi choro, não do recém-nascido do andar de baixo, mas de Marta. Apesar dos apelos de Paulo, ela desceu as escadas tropeçando em seus próprios tamancos e vagou feito zumbi no saguão desejando a morte dele.

Hoje eles quebraram pouca coisa, acho que não sobrou muito desde a primeira briga, e xingaram em voz relativamente baixa. No momento de maior tensão, puseram um forró na vitrola em alto som para abafar as ofensas.

Assim vivem desde que aqui aportaram, há quase um ano, desconectados da realidade e imersos na loucura de uma relação de co-dependência que só produz infelicidade. Conforme o tempo passa, vão se habituando à prisão e aprimorando seus papéis de carcereiro e prisioneiro, que alternam com frequência.

Amanhã acordarei com olheiras memoráveis para minha reunião e Marta acenará da janela da cozinha a Paulo, lançando-lhe beijos ao ar de bom trabalho, como faz regularmente.

Ainda chamam isso de amor.

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