sábado, 24 de janeiro de 2009

Enfim, sós

Durante a 2ª Guerra Mundial, foi descoberto o aquecimento por meio de microondas, componente fundamental dos sistemas de radar. Passados quase 70 anos, desconheço cozinha de classe média que não exiba o eletrodoméstico, exceto a minha. Até ontem.

Cansei de esfregar religiosamente a leiteira de inox para aquecer parcos 300ml de leite. Cansei de perder mais de 30 minutos para esquentar refeições congeladas que grudam no tabuleiro e terminam, diria Antunes, como um corpo ressequido. Cansei de comer pipoca apenas no cinema. Cansei de limitar o cardápio à lembrança antecipada do degelo de alguns ingredientes. Cansei da impossibilidade de adquirir dezenas de produtos elaborados especialmente para cozimento no microondas.

Já tive microondas certa vez, presente da minha mãe. Era grande, robusto e cheio de funções, das quais usava apenas duas: pipoca e aquecimento. Nessas andanças país afora, fui parar na força de 220 e, carioca da gema, o microondas era 110. Precisava utilizar, então, um conversor. Hospedei uma amiga em casa e expliquei a engrenagem uma, duas, três vezes, mas a brisa do Nordeste soprou para longe a informação da cabeça dela. E lá se foi meu microondas zero quilômetro.

Recentemente hospedei outro amigo em casa. A essa altura, vocês devem estar se perguntando se planejo entrar no ramo de pensões e pousadas. Quem sabe um dia? Ele, curiosamente, apesar de se intitular chef de primeira, arrastou todas essas porcarias fast-food congeladas para o meu freezer e teve que improvisar hambúrgueres em formato de misto quente no grill quando descobriu que, no lugar reservado ao aparelho, havia dezenas de canecas e xícaras de todos os tamanhos.

Mas tudo isso é passado. Agora tenho um microondas que mais parece uma nave espacial, com mil e uma utilidades além daquelas descritas em manual. Entre elas, a função auto-ajuda. Diferentemente da máquina de lavar que, impiedosa, aponta sem eufemismos a passagem do tempo nos braços, o espelho gris do microondas tira olheiras, rugas de expressão e abatimento. Esconde também o ressecamento e o frizz dos cabelos. Se eu soubesse, teria apressado a compra!

Isso o tal Percy Spencer não descobriu. Guloso, o engenheiro fazia testes na magnetron com uma barra de chocolate no bolso. Quando resolveu saboreá-la, percebeu que tinha se transformado em chocolate quente. Resumidamente, até porque não sou especialista no assunto, as microondas são ondas de rádio de alta frequência que se refletem no metal, possibilitando detectar objetos a distância, como aviões inimigos. Em contato com água, gordura ou açúcar, elas produzem calor. Por isso que à época eram encontrados pássaros cozidos perto das torres de microondas.

Reafirmando o nome deste blog, presto um serviço de utilidade pública. Não é sem razão que recomenda-se verificar se o aparelho parou de funcionar antes de abrir a porta. Na fase pré-comercialização, e não é lenda, alguns profissionais ficaram cegos. Os olhos foram cozidos pelas microondas.

Deixando de lado a personalidade diabólica que, mal empregado, o microondas pode assumir, quero registrar este dia histórico. Até porque estou apaixonada. Como sabem, quando se está apaixonado não existem Daniel Dantas e Naji Nahas para atrapalharem a felicidade. Tudo que há é você, seu amor e toda uma vida cor-de-rosa até a separação. Neste caso, o microondas e eu até a obsolescência. Dele, é claro.

3 comentários:

Ana Laura disse...

Parabéns pela aquisição! Não sei como sobreviveu sem esse companheiro de todas as horas, principalmente nas madrugadas insones e famintas.

Anônimo disse...

Parabéns pela compra! Já estava passando da hora. Beijos, Sandra

Anônimo disse...

É né Viviane, o tempo passa, mas a confusão com o microondas ficou.Rs. O engraçado é que eu não lembro de ouvir vc falar em 220v ou 110 v ou lá quantos volts.rsrs. O Pior é que eu só fiquei sabendo que aquilo queimava o aparelho depois que liguei. rsrsr
Bjs, Dani.