segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Visita ao cemitério

Costumo oscilar entre o ceticismo e a crença no sobrenatural. Entre uma coisa e outra, uma certeza: não me sinto à vontade nos cemitérios. Tem muita gente que não se incomoda e dependendo do "campo santo" – por exemplo, se no estilo "Jardim da Saudade" – sente-se em paz e pratica até meditação. Não é o meu caso.

Essa história de que devemos ter medo de quem está vivo e de que morto não faz mal é muitíssimo racional. Mas isso não me dissuade um milímetro do meu, digamos, respeito por aquele lugar.

Apesar disso, resolvi ir sozinha ao Père Lachaise, onde repousam nomes como Jim Morrison, Chopin, Oscar Wilde, Allan Kardec, Balzac, entre outros famosos e anônimos.

Tomei um metrô e desci a poucos metros da entrada lateral do cemitério. Na chegada, minha coragem quase toda se esvai. Não tinha ninguém subindo as escadas de acesso e eu sabia que, ao chegar no último degrau, daria de cara com um túmulo. "Viviane, você é mané mesmo. Deveria ter escolhido um horário em que o turismo fosse intenso. Na hora do almoço é capaz de você ver o que não quer", pensei.

Para minha felicidade, encontrei três pessoas vivas tentando se localizar por meio de uma placa. Achei muito difícil decorar a localização de cada túmulo a partir das poucas placas que havia. Sem contar que não tenho senso de direção apurado. Depois de alguns minutos de frente para a placa sem saber o que fazer, passam dois brasileiros (esses eu tinha certeza de que não poderiam mesmo estar mortos ali) com mapas nas mãos.

Eles disseram que sem mapa eu levaria muito tempo para achar os túmulos dos famosos e que minha visita demoraria horas. Nem pensar. Era tudo o que eu não desejava. Fui orientada a me dirigir à entrada principal do cemitério, cruzar a rua e procurar uma floricultura, que vendia a minha salvação por dois euros.

O caminho era longo e, o que é pior, com poucos vivos. Esse início foi um dos piores momentos. Olhava para os lados e não via ninguém. Ouvia apenas o barulho de folhas secas se arrastando no chão. Procurava não encarar os túmulos e afastar os pensamentos nefastos. Teve um, no entanto, que não consegui: "E se eu me perder até a entrada principal?". Apressei o passo e mantive o autocontrole até encontrar um casal norueguês que sinalizou o destino.

Quando cheguei lá fora, juro que minha vontade foi gastar os dois euros num chá para me acalmar e passear no Sena. Havia tanta coisa bonita a contemplar e eu ali. Não fazia sentido. Com ou sem sentido, voltei. Precisava vencer o medo.

Com o mapa em mãos, percebi que não seria tão fácil quanto eu imaginava. O mapa não é minucioso, nem a cidade dos mortos planejada como Brasília. Acabei me concentrando na leitura, na interpretação do mapa e na tentativa de encontrar os jazigos e me esqueci dos espíritos, dos estalares, dos gatos e do farfalhar das árvores.

Ao chegar até Morrison, fiquei decepcionada. Um túmulo humilde, escondido entre outros dois e de difícil acesso até para tirar foto. O compositor de "Você sabe que não seria verdade, se eu lhe dissesse que não poderíamos ir mais além" (Light my fire) merecia mais.

Passei por outros, mas vale a pena falar de dois túmulos. Um deles é o de Kardec, pelo inusitado da situação. Estava eu lá com mais quatro pessoas diante do túmulo quando um homem careca, sem alguns dentes, de moleton e chinelos sorri e acena. Achei aquilo estranho, mas dei alguns passos até a árvore que o amparava.

Ele iniciou a conversa perguntando e respondendo ao mesmo tempo sobre quem era Kardec. Descreveu Kardec como um grande filósofo. E eu caí na besteira de completar: é o grande nome do espiritismo. Sem saber a minha nacionalidade, ele falou que o Brasil acredita nisso, mas que a história não é essa. Perguntou, então, se eu já tinha ouvido falar em Gabriel Dellane – esse, sim, segundo ele, "o papa" da doutrina espírita. Disse que não, já tentando sair. Mas não consegui. Ele pediu que eu o acompanhasse até Dellane.

Conforme avançávamos, fiquei com medo. Primeiro tive medo de o homem ser um espírito e, assim como um cachorro que fareja os humanos assustados, ter me descoberto no grupo, insegura naquele ambiente. Depois, quando desejou bom dia para um casal que passava (mas tenho certeza absoluta de que não conhecia o casal) e o casal retribuiu o cumprimento, tive a comprovação de que ele estava vivinho da Silva. A menos que o casal também estivesse morto, mas isso não me passou pela cabeça. Então, fiquei com receio de que ele quisesse me estuprar entre os jazigos. Perguntei se faltava muito para chegar e ele respondeu que era logo ali. De fato, paramos em seguida. Ele me deu uma aula, mas eu estava desatenta. Depois de um tempo, gentilmente agradeci a atenção (isso não é comum entre os franceses) e contei que alguém esperava por mim. Ele não acreditou em uma só palavra, mas me libertou.

Confesso que esses foram minutos longos e tortuosos. Fazendo uma retrospectiva, não sei onde eu estava com a cabeça. Engraçado é que a gente vê essas cenas em filmes e critica: "Ah, que mentira! Por que a mocinha acompanhou o algoz?". Percebo agora que essas coisas acontecem. Depende do momento, do estado de espírito. E eu estava decidida a superar meus temores.

Como essa prosa mórbida já vai extensa demais, terminarei com Wilde. A última tumba que vi e a mais alegre. O escultor norte-americano Jacob Epstein fez um túmulo em que Wilde aparece nu e como uma esfinge. Uma obra de arte. O mais curioso é que ela é coberta de beijos de batom e frases do tipo: "Te amo", "É difícil viver sem você", "Você deu sentido a minha vida". Um barato para aquele que levantou a bandeira do "amor que não ousa dizer o nome".

Saí de lá com uma sensação boa. Consegui superar, em parte, um desafio e, uma vez mais, me dei conta de que tudo estraga rápido e que, portanto, é melhor decidir logo o que se quer fazer.

Um comentário:

Anônimo disse...

Ai, ai, estou rindo até agora deste episódio! Com certeza o mais hilário de toda a novela...
:-)
Beijos,
Vander