sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Nice, Mônaco e...kebab

Apesar de cansada, o sono não vem. Resolvi, então, aproveitar as horas que restam depois do trabalho. Comprei passagem de ônibus comum (daqueles que no Rio de Janeiro são chamados de cata-corno) e lá fui para Nice. A viagem durou uma hora e meia porque o ônibus dá mil voltas e freia em todos os pontos. Mas não posso reclamar, afinal, esse é o preço do desconforto: um euro e trinta centavos.

Nice é o maior balneário da costa mediterrânea. A cidade foi italiana até 1860 e as fachadas dos prédios em tom pastel da Cidade Velha confirmam a origem. Logo de cara dá para sentir a diferença para Cannes. Esta menor, mais provinciana.

Não tive muito tempo para conhecer a quinta maior cidade da França. Vi os pontos principais e fiz o circuito turista, ou seja: beira-mar e praça do Hotel de Ville. Na volta, a correria, o cansaço, a comida gordurosa do fast-food, o ônibus sem ventilação e o cheiro de suor no ar me deixaram enjoada.

Sentei em frente a única porta que abria e fechava nas paradas - não há janelas ou basculantes no ônibus. O povo deve ter me achado muito doida: toda vez que a porta abria, eu inclinava o corpo para tomar ar. Não estava quente apenas, estava abafado. No fim, deu tudo certo e cheguei inteira ao hotel.

Como sobrevivi ao dia anterior, resolvi conhecer Mônaco - de trem. Depois do trabalho no Palais, mudei a roupa e corri para a estação. A viagem, que dura uma hora, é belíssima e a área, com cerca de dois quilômetros quadrados, um luxo. Na verdade, Mônaco é um pouco arrogante e por vezes parece esnobar os visitantes. A salvação é a inebriante beleza natural, com mar e formações rochosas. Fui seduzida também por Adão e Eva, de Botero, no jardim próximo ao Grand Casino. O mais incrível é que a escultura parece desprezada. Não há guias, turistas, estudantes. É como se ali estivesse um chafariz. Talvez o chafariz chamasse mais atenção.

Curiosidade: quase tudo em Mônaco faz alusão à ex-atriz Grace Kelly, esposa de Rainier III. Há, inclusive, fotos dela nas estações de ônibus. Era, de fato, uma mulher lindíssima.

Como a cidade é pequena e eu estava exausta, resolvi adiantar minha volta, até porque teria que acordar ainda mais cedo no dia seguinte. O problema é que não havia ninguém na estação para informar nada. Nem um guarda, um jornaleiro. Perguntei a um passante se sairia trem para Cannes mais cedo. Ele achava que não e sugeriu o trem até Nice. De lá, era mais fácil seguir para Cannes. Aceitei a sugestão.

Em Nice, descobri que não adiantava a pressa. Lembrei-me da matrona do Le Pacific ("Os últimos não são os primeiros"). O único trem era o meu, que sairia de Mônaco. Já que o jeito era esperar, fui andar pelas redondezas da estação de Nice Ville, um local de imigrantes. No Brasil, seria um bairro de subúrbio classe baixa. Parecia outra França; um choque com o que tinha visto até então em Cannes, Mônaco e no circuito turista de Nice. Ruas esburacadas, carros velhos, mendigos, restaurantes humildes e pichações por todos os lados.

Andei alguns metros e achei uma porta com um cartaz que anunciava kebab autêntico. O lugar era sujo e feio, como quase tudo em volta, mas fiquei com água na boca. Não tive dúvida! O dono, um turco, foi muito paciente comigo. Expliquei que não queria maionese e nenhum outro molho e ele sequer fez cara feia.

Enquanto o kebab era preparado (o turco enrolava o pão folha com as mãos e dava troco ao mesmo tempo), tive que tirar o casaco porque o lugar parecia a ante-sala do diabo. Na parede enegrecida pela gordura, via-se um papel plastificado com um certificado que garantia o padrão de higiene. "Será que também aqui tudo tem seu preço?", pensei. Preferi acreditar que não.

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