quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Meus bebês

Bateram no meu carro. Bateu, na verdade. Uma mulher deu ré sem olhar para trás e acertou meu carro com 4 mil quilômetros rodados. Depois de uma dose extra de paciência que tirei das veias, convenci a perigosa condutora de que quem dá ré e não olha para trás está errado e que, portanto, deve arcar com o prejuízo. Ela assinou dois cheques de R$ 175, um deles pré-datado, após ter feito cotação numa coisa chamada "Lanternagem do Gaúcho". Pesei os pró e os contras e decidi não entregar o carro nas mãos de qualquer carniceiro. Levei-o à concessionária.

O serviço na autorizada, é claro, custa o dobro e mais um pouco. Todo o meu poder de persuasão valeu R$ 150 de desconto. Agora, a pior parte: ligar para Valdete e dizer que ela precisava assinar outro cheque. Expliquei que serviços de funilaria são delicados, que meu carro é novinho e que a cor dele não é prata, vermelho ou preto, mas bege angorá! É um prata com um pouco de sujeira e leite. Ao que ela respondeu debochadamente: "Você trata esse carro feito um recém-nascido. Parece até um bebê!". Isso porque não mencionei o leite... Devolvi: "Valdete, sem ironia e desrespeito. Nunca falei com você nesse tom e até teria motivo. Saí de minha casa no sábado para buscar um vestido de festa na lavanderia e fiquei sem o carro para ir à festa".

Educação e boas maneiras não se ensinam superficialmente e em minutos para uma pedra bruta como Valdete. Cansada das grosserias de uma mulher das cavernas, resolvi arcar com a diferença. No meio da conversa, ela ameaçou sustar os cheques. Não quis correr mais riscos: depositei os dois, inclusive o pré-datado.

Tudo parece acontecer na semana em que você está sem carro, refém de táxi. As lentes de contato ficam prontas, a ginecologista consegue encaixar você no final da tarde, os filmes não foram devolvidos à locadora. Com relação aos filmes, resolvi fazer uma caminhada até a BlockBuster. Na volta, um Fox me detém. Pensei que o motorista estivesse perdido. Isso é comum onde moro, apesar de o bairro seguir a mesma lógica cartesiana. Mas a informação que ele queria era o meu telefone. Desceu do carro, disse que vinha me acompanhando desde antes da rua per capita que separa o bairro dos ricos do bairro daqueles em desenvolvimento (estou aqui, espero que em franco desenvolvimento) e que ficou "encantado" ao me ver "desfilar" na calçada.

Quando ele desceu do carro, pensei: "Serei processada". Renan era tão educado, tão cordial, que me permiti ouvi-lo por alguns minutos. Então ele contou que terminaria a faculdade neste semestre e que está resoluto na decisão de estudar para o concurso de gestor. Comecei a rir e perguntei: "Diga pra titia quantos aninhos você tem, diga!".

Renan não se convenceu sobre a impossibilidade de qualquer coisa além de um coleguismo entre nós. Ele usa "e daí" para atar uma idéia a outra e nunca ouviu falar de Chatô. Como chegamos em Chatô? Ele perguntou a minha formação e depois disse que um primo é jornalista do grupo "Diários Pernambucanos", que também é dono do Correio. Expliquei que o nome do grupo é Diários Associados, da massa falida de Chatô. Ele olhou pra mim com aquela desconfiança. "Pode parar! Sou mais velha, sim, mas nem tanto. Não sou contemporânea de Chatô. Mas estudei a história da televisão na faculdade e li a biografia escrita por Fernando Morais". Fernando Morais? A esse ele também não fora apresentado.

E lá vai Renan subir as ladeiras de Olinda atrás dos blocos, puxar o cabelo das meninas de 18 e apostar com os amigos quem bebe mais Skol sem cair. E lá vai titia Vivi para o Rio de Janeiro com pilhas de relatórios de atividades, leis, portarias e planilhas, se permitindo em um dos dias de folia cantar e sambar na Sapucaí, com aquela resseca no dia seguinte...

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