quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Le Pacific e suas histórias

Estão lembrados do tal restaurante que os locais freqüentam? O nome dele é Le Pacific, que mantém a tradição há quase 40 anos. Almoço nele desde que cheguei. Já conheço todos por lá. E, apesar disso, ainda sou mal tratada. Ontem, por exemplo, quando solicitei a presença da garçonete, ela anunciou para quem quisesse ouvir: "Você terá que esperar cinco minutos. Os últimos não são os primeiros". Nem me incomodo mais. Respondo: "Está bem, está bem" e aguardo a vez. Quando ela se aproxima, a atenção dispensada a mim é mínima e preciso decidir bem rapidinho o que comer para que ela não se zangue comigo.

Na França, faça como os franceses. Assim tem sido. Nada de inventar moda e pedir pratos especiais ou solicitar a troca dos acompanhamentos. Portanto, minha aventura gastronômica continua. Pergunto qual o prato do dia, mais rápido e econômico, e lá vou eu. Um desses foi cassoulet: uns feijões anêmicos com carnes de porco, pato e boi. Quando olhei para o prato, juro que me arrependi. Até porque avistei de longe aquela salsicha branca. Argh! Mas não dava para voltar atrás. Sorte que a primeira impressão nem sempre é a que fica. Apesar do jeitão esquisito, a comida era saborosa. Será que a mesma regra vale para Ismail? Ah, isso eu nunca vou saber.

Nesse mesmo local, eles não cobram nada pela água. Colocam nas mesas uma garrafa engordurada de vidro com água da bica. O menu inclui, além do prato principal, pão e uma taça de vinho (branco ou tinto). Não é possível trocar o vinho por suco ou refrigerante. Dia desses havia umas micro-partículas escuras no meu vinho branco. Poderiam ter saído da rolha, mas também poderiam ser tantas outras coisas. O homem que recebe o dinheiro, põe a mão no pão, corta batatas e limpa os dedos numa calça jeans marrom. Reclamar está fora de cogitação.

Vocês já assistiram a um episódio de Seinfield, um dos mais conhecidos (SoupNazi), em que ninguém se mexe na fila para não correr o risco de ficar sem sopa? Se o cliente pede guardanapo, o cozinheiro argentino vira para a vítima e dispara: “No soup for you!”. Pois bem. Qualquer movimento não calculado no Le Pacific pode resultar na garçonete matrona gritando: “No food for you!”.

Mas o lugar também tem seu lado bom, é claro. Como é muito pequeno e os freqüentadores se conhecem, as mesas são compartidas. Portanto, sou acomodada (sujeito passivo da ação porque não tenho direito de escolha) ao lado de desconhecidos na hora da refeição. Dia desses tive a oportunidade de papear com uma senhora. Ela decidiu abandonar Paris e viver em Cannes por causa do clima ameno. Disse que, quando jovem, lia espanhol e português, e lembrava com saudosismo a Cannes de outros tempos.

Vai ficar na memória esse lugar em que comi também perua à milanesa e ervilha guisada, em que assisti a uma briga do dono, um senhor com cerca de 70 anos, com o cozinheiro e onde o mesmo senhor e as atendentes deixaram de receber os clientes para falar ao telefone com um familiar que ligava de longe.

5 comentários:

Anônimo disse...

Nossa, como as coisas mudam em um país estrangeiro... Come tudo e qualquer coisa sem reclamar e com desconhecidos!!! :-)

Beijos,
Vander

Anônimo disse...

Viviane, acho que eu não conseguiria comer nesse lugar. Comeria pão todos os dias, com leite. Essa sua viagem parece mais uma comédia... Beijos, Sandra

Anônimo disse...

Oi Vivi: estou adorando as tuas aventuras em Cannes. Ri bastante lendo a aventura no restaurante. Um grande beijo da sogrinha Sueli

Anônimo disse...

estou estudando francês aqui em chapecó e a minha gentil professora me repassou na semana passada várias receitinhas, entre elas essa... ainda não tentei fazer, até porque, segundo ela mesma, é preciso fazer um verdadeiro tour pela cidade para conseguir os ingredientes necessários, já que dificilmente se encontra tudo no mesmo lugar...

não que seja algo raro, mega-sofisticado... é que aqui é mto estranho... qq coisinha um pouco diferente, tipo manjericão, hortelã, tomilho, vc não encontra nos supermercados... esperava que fosse mais fácil, já que aqui predomina a colonização italiana, mas, que nada... acho que os italianos que vieram para cá para este pedaço perdido do brasil não tem na sofisticação seu ponto forte, mto pelo contrário... é uma turma de carcamanos, para usar o termo deles próprios: se não fico mto, mto esperta, eles me roubam no troco na maior cara de pau! não foi uma nem duas, mas várias as vezes em que já passei por isso.

italianos e alemães se odeiam e se acusam mutuamente de ser gente que não presta... sei não... os alemães são mto preconceituosos, racistas até o último fio de cabelo. O que os une? eles falam dos brasileiros na terceira pessoa. Isso mesmo. Pra eles NÓS é que somos brasileiros, pretinhos, negrada. Eles não. E olha que muitas dessas famílias já estão na terceira ou quarta geração no Brasil. Que loucura, né?

tenho vários amigos que já foram maltratados aí na frança, mas não se preocupe porque nenhum deles morreu por causa disso. Eu infelizmente ainda não tive esta oportunidade, mas espero tê-la em breve: eu e vitor estamos planejando para o ano que vem uma viagem a portugal, frança e espanha... fazendo este roteiro, acho que é quase garantido levar uns foras nos restaurantes locais! kkk

beijos!

Renata

Anônimo disse...

Viviane, em POA há um Pacífico (de um amigo meu) no mercado público. Sem o mesmo charme, mas a comida não é de jogar fora. RM