quinta-feira, 17 de abril de 2008

Vítima do BOPE

Médico, 38 anos, 1,80m de altura, corpo atlético, olhos verdes. Solteiro. Heterossexual. Resumo atrativo.

Permiti, então, a corte e aceitei o convite para jantar. Pensei que todo o defeito dele se resumisse à indecisão, afinal, tratava-se de um libriano estereótipo. Desci do carro duas vezes, cumprimentei gerentes e maîtres e ele mudou de idéia. Mas da terceira vez, quando sugeri um bistrô, ele aceitou prontamente e começamos a noite.

Não sou pudica, mas me sinto incomodada quando, nessa fase de exploração, o outro xinga sistematicamente. Da primeira vez foi um sonoro MERDA. Inofensivo, mas feio. Depois vieram alguns PORRA. E até um FODA, se referindo a mim. Não gostei do linguajar. Na verdade, inferi que a noite não ia acabar bem quando ele ligou para avisar que já estava na portaria:

- Estou a bordo. Venha!

Ao sairmos do carro - definitivamente, desta vez -, comento que o tempo nos favoreceu. A chuva tinha cessado, as poças se desfeito e pairava no ar um cheiro de terra molhada. O bucólico cenário é vertiginosamente interrompido por uma pergunta à
queima-roupa, bem ao estilo do meu pretendente:

- Você não gosta de gota no crânio, né?
- Como?

E ele repetiu. Gota no crânio! Respirei fundo:

- Adoro dias ensolarados, céu azul, girassóis. Chuva tem seu encanto quando você está bem acompanhado, numa casa de campo, com lareira e vinho. Pode até tirar a lareira e a casa de campo, desde que acrescentado o friozinho. Ou então para dormir.

Poderia apostar que ele ia mudar de assunto ou, pelo menos, se redimir. Mas não. Disse que gostava de chuva, de nuvens negras, de tardes sombrias e mórbidas. Era um prenúncio do que eu ia passar. E o jantar nem começara.

Já sentados à mesa, sugeri bruschetta tradicional de entrada. Conhecia o local e podia assegurar que comeríamos uma das melhores da região. Devia ter pensado duas vezes, é claro. Ingenuidade.

- Viiiiiiii, o que você está me oferecendo? Humm... É isso mesmo? Sem nenhuma preliminar? Adorei a idéia!

O garçom ouviu e, se minha educação não fosse maior que o ímpeto, teria ele ficado só. Quando o garçom se afastou, finamente o repreendi.

- Você ficou sem graça? Era uma brincadeira!

Lógico que era uma brincadeira, uma brincadeira de gosto duvidoso, dita de forma grosseira por alguém que não conheço o suficiente.

Pensam que acabou? O problema deste conto é espaço.

Enquanto ele servia a cava espanhola, sugerida por mim, comentava entusiasticamente a quantidade de mortes violentas nas grandes capitais, o trajeto de uma bala no corpo humano, o caso da menina estuprada e morta pelo padrasto pastor e tantas outras
histórias sanguinolentas. Eu me embebedava e maquinava um jeito de terminar aquele pseudo-jantar-romântico de uma forma polida que não afetasse minhas amizades.

Não satisfeito, ele demonstrou todo seu lado afável ao investigar que tipo de relação eu mantinha com o ex:

- Vi, sou muito romântico. Capaz de despejar um helicóptero de flores na sua calçada. Mas capaz também de mandar um helicóptero de balas se você conversasse com ele e eu fosse o outro.

Nem me dei ao trabalho de explicar que não existia a figura do "outro". Que só existiria ele. Não, não ele! Cruz, credo! Nesse tempo, me lembrei das artimanhas do filme "Como perder um homem em 10 dias". Só que meu prazo era exíguo: precisava me livrar desse homem em cinquenta minutos. Não sobreviveria a mais tempo.

Como não me defendi, ele se deu por satisfeito e resolveu falar do último namoro. Terminou porque a candidata quis ir para Micareta. Perguntou o que eu achava.

- É difícil responder sem conhecer os detalhes do relacionamento. Sei que é clichê, mas confiança é fundamental. Quando um quer aprontar, apronta. Pode ser de dia, na hora do almoço. Você sabe disso tão bem quanto eu. Depende do que foi pactuado entre vocês.

- Mas Micareta é o lugar da sacanagem. Sem contar que se eu não ia, ela tinha que ficar comigo.

- A segunda afirmação é complicada. Se tem uma coisa que aprendi com os relacionamentos é que não preservar a individualidade é aniquilar a saúde de qualquer
relação, por mais apaixonada que seja. Romantismo e companheirismo também pedem respeito à liberdade de ser do outro.

Ele voltou o foco para a questão da fidelidade e não sei como chegamos às viagens a trabalho. Expliquei que viajava com freqüência. Às vezes com homens. E, dessa vez, ele se superou:

- Se fosse minha mulher, jamais embarcaria numa dessas! Pensa que eu ficaria em casa sacudindo criança para você viajar com um homem? Aha, jamais!

Não que eu quisesse ser mulher do Capitão Nascimento, mas não podia deixar uma blasfêmia passar incólume.

- Não é possível chegar para um chefe e dizer que o cônjuge é ciumento e proíbe você de viajar. Cadê o profissionalismo? E a confiança? Não tem cabimento o que você diz.

- Mas, então, tem cabimento chegar para o chefe e dizer que seu marido é chifrudo? Você nunca namorou um sangue quente? Comigo, você não passaria do check in.

Finalmente a redenção! A chave da minha libertação.

- Você tem razão. Nunca namorei um sangue quente e nunca namorarei - derramei as palavras docemente, como um creme brullé. Se bem que a sobremesa não é um bom exemplo porque dizem se tratar de um afrodisíaco. E continuei:

- Vivo intensamente, sou apaixonada, mas aprecio a natureza pacífica.

Emendei banalidades e cheguei até a conta ao garçom.

Entrei no carro aliviada porque sabia que eu precisava apenas manter o placar das amenidades até o apito final do freio do carro. Mas as pessoas são incrivelmente surpreendentes. Capitão Nascimento resolveu fazer o que ele chama de adestramento da
elite da Polícia comigo. Disse que cada hora significava uma posição e que o código era usado para identificar a localização de um bandido durante um confronto armado. Mesmo depois de eu ter dito, mais de uma vez, que sou avessa a esse tipo de treinamento e que tenho dificuldade para identificar, de pronto, direita e esquerda, ele comandou a operação:

- Viviane, três horas! Viviane, onze horas! Onze horas, Viviane! Viviane, você vai morrer!

Ledo engano. Já estava morta. Inerte. Paralisada pela perplexidade. Só tive fôlego para mais um pensamento: ele errou o texto. Deveria ter gritado:

- Pede pra sair! Pede pra sair! Pede pra sair!

E eu seria a primeira a desertar.

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