sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Teatro da Competência

O primeiro dia de trabalho rende sempre ótimas histórias. Não é diferente o primeiro dia de trabalho na mesma instituição, porém, em outro setor. Alguns sabem quem você é e você não tem idéia de quem é quem. Para dar a exata dimensão do desconhecimento: você nem sabe onde fica o banheiro mais próximo. No meu caso, sei onde ele fica: dentro da minha nova sala. Não vou discorrer sobre as facilidades de um banheiro dentro da sala porque não é o caso de uma crônica escatológica. Sigamos em frente.

Estou acostumada a trabalhar rodeada de gente. Foi assim desde os tempos de estagiária nas redações de jornal. O burburinho não me desconcentra. Repórter que se preze desenvolve essa capacidade. O colega ao lado entrevista, no viva-voz, o Gianecchini e pergunta qual o tipo de mulher que o seduz e você está concentrada na denúncia sobre corrupção da merenda escolar. Nesse caso, confesso: ainda preciso aperfeiçoar a técnica. Quem sabe um dia? Quem sabe se for o arrogante Caco Ciocler? Com certeza eu demonstraria toda essa capacidade com Aécio Neves, Roberto Justus e Ricardinho Mansur.

Minha nova sala é inacreditavelmente espaçosa. Tenho sofás, plantas ornamentais, estantes, uma mesa de reunião que cabe toda a escalação do meu querido Botafogo, campeão desde 1910, um frigobar, o citado banheiro com direito a guarda-roupa e bidê, e uma mesa diretora maior que a minha cama. Essa, na verdade, eu tinha.

Preciso dar mais de 15 passos para encontrar outro humano. Parece um setor para leprosos. Ah, antes havia o barulho das manifestações, quase sempre protestos contra alguma ação (ou falta de) do Planejamento. Agora, ouço os pássaros, o vento nas folhas das árvores e vejo o lago. Bucólico cenário. Deveria estar contente. Mas me sinto só. Ainda bem que tanto trabalho me distrai.

Dia desses fiz um movimento brusco e me deparei com uma campainha embaixo da mesa. Morri de medo e fiquei quietinha até minha secretária voltar. Onde será que isso toca? No gabinete do meu chefe? Não pode ser! Hierarquicamente não é factível. Seria um contra-senso. Mas muita gente não tem bom senso... Descobri, então, que o distinto que ocupou esse cargo em tempos remotos não gostava de usar telefone e chamava a equipe pela campainha. Surreal! Mas, para minha sorte, ela estava desativada.

A mesa, além da campainha muda, comporta seis gavetas que não abrem nem fecham. Esse humano singular era muito tradicional, de acordo com minha secretária, e não quis trocar o mobiliário na última reforma. Já me sinto só e se ladeada por móveis velhos recorrerei ao Prozac. Pedi a substituição da mesa aristocrática de madeira de lei por uma dessas moderninhas que não valem nada. Tanto é que já chegou arranhada. Não importa. Melhor assim. Mandei embora duas cadeiras azuis de estofamento pomposo, mas desgastadas pelas bundas do tempo.

No meio da reforma, surge a copeira: "Nossa! Quando vi a mesa no corredor não acreditei que estavam tirando da sala da senhora! Fazia conjunto com a estante...". Em seguida aparece o chefe de serviços gerais e diz que só posso mudar o que estiver quebrado. Por fim, recebo uma visita do meu antigo setor que completa: "Esses móveis devem ter sido de alguém famoso". Pronto! O medo da campainha voltou. Onde soará o alarme dessa vez? Falo imediatamente com uma amiga que está na chefia de gestão e recursos: "Jane, esses móveis bolorentos foram de alguém famoso como aqueles expostos na visita guiada do Congresso?". Ela, mais sem juízo que eu, responde: "Famosas somos nós, Viviane". Hesitante, me despedi da tradição.

"A Alma Imoral" a que assisti no Teatro da Caixa corroborou a decisão. A personagem de Clarice Niskier diz que não existe tradição sem traição e traição sem tradição. Fui, portanto, a traidora da tradição. E fiquei com a consciência em paz porque dei minha contribuição para a manutenção da tradição. Foi dito também que satã é a acomodação. Demonstrei que não tenho satã dentro de mim. A personagem, nua, afirma que não devemos esperar que o mar se abra, mas, sim, marcharmos convictos de que ele se abrirá na hora em que tivermos que cruzá-lo. Espero que o mar, de fato, se abra, porque a água já está no pescoço. Se o mar não se abrir, rezo que meu chefe tenha visto a peça.

A personagem explica que depois que arriscamos e mudamos uma situação tediosamente confortável, nos sentimos sós, mas que não devemos temer a solidão. A pior solidão é a perda de si mesmo. E encontraremos um outro que esteja experimentando a mesma solidão. Verdade. Entra na minha sala a coordenadora recém-chegada ao departamento, tão só e desesperada quanto eu. Lembro-me, então, da minha terapeuta. Se essas peças viram moda, ela vai perder a profissão.

Do meio para o fim do monólogo, um chamamento à reflexão: macaco que se percebe macaco já não é macaco. Cobra que se percebe cobra já não é cobra. Mas ser humano que se percebe ser humano é ser humano. Ser humano que não se percebe ser humano pode ser macaco, cobra ou qualquer outra coisa. Assim sendo, estimados amigos, torço para que meus novos companheiros de trabalho sejam todos verdadeiramente humanos e desejo que também vocês convivam com estes, sempre.

A cobra

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