quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Pinto enviado dos céus

Sabem aqueles dias em que quase tudo dá errado? Claro que sabem. Quem já não teve um dia desses? E sabem quando você pensa "Agora, finalmente, acabou" e aparece outro problema? Se, apesar das dificuldades, você mantiver o bom humor, melhor. Se não conseguir e encarar a vida de uma forma mais amena, com certeza rirá depois.

Resolvi pintar o apartamento. Há muito tempo queria fazer isso. O antigo morador pôs papel de parede na sala e no corredor com uma estampa, no mínimo, duvidosa. Não satisfeito, ele pintou as paredes de um creme, bege ou sei lá que cor que escurecia o ambiente e me deixava louca e envelhecida à noite. Detalhe é que essa não foi uma decisão amadurecida. Sempre quis pintar, mas resolvi isso de um dia para o outro. Na verdade, depois de um almoço com uma amiga que pintou o apê dela com as próprias mãos. "É disso que preciso", avaliei. Ah, que fique claro: não de passar o rolo infinitas vezes nas paredes. Já chega a Fabiana. Lembram-se dela, não é? A professora de sadomasoquismo.

O incômodo natural nesses casos (o pintor subestima a quantidade de material e liga no meio do trabalho querendo que eu saia correndo para comprar mais tinta; os móveis todos cobertos por um lindo pó branco; o cheiro que alucina) foi amplificado por outros problemas que tive nesse mesmo período.

No segundo dia da pintura, não dormi à noite. Apesar de morrer de medo de barata, morcego e outros nojentos mais, tive que escancarar a janela da cozinha. O ventilador parecia apenas agravar a situação. Passei a noite em claro fungando o nariz, bebendo água e respirando, com metade do corpo para fora da janela, o ar puro da madrugada. No dia seguinte, seria até desnecessário contar: sono, mal humor, olheiras, brotoejas e uma TPM danada faziam desse um dia de fúria.

Chego ao trabalho tentando manter o autocontrole. Outra vez passei pelas maledicentes que fumavam na entrada. Com certeza dei ainda mais munição a elas, que devem ter pensado ao se depararem com a minha exaustão: "Não há quem resista à libertinagem". Tive várias reuniões chatas em que fui silenciada pela força da hierarquia e, portanto, não completei as 14.564 palavras diárias que toda mulher tem que falar.

Entre uma dessas reuniões, recebo email de um colega de trabalho que está de saída e, portanto, com pouco serviço. O email mostrava um homem lendo (ou tentando ler) o jornal enquanto a mulher brincava com um pintinho em cima da mesa. Como quase todo homem, o rapaz em questão não consegue se concentrar em mais de duas ações ao mesmo tempo e demonstra toda a sua impaciência e força ao dar um único e certeiro tapa, esmagando a criaturinha amarela. Depois se lê: "Homem de TPM não gosta nem de carinho no pinto". Nada mais faltava.

Costumo apagar imediatamente essas mensagens, mas, dessa vez, o sono me fez abrir o email e ir além (ou talvez o pintinho). Respondi ao nobre colega: "Cuidado porque quem está na TPM sou eu".

Combinei um lanche no início da noite com um amigo que não via há alguns dias, depois de trocas e trocas de emails. Pensei em desmarcar, porque ele também estava com problemas. Mas resolvi fazer de tudo para que o encontro acontecesse, até porque poderia ser a parte redentora deste dia de fúria. Como ele tinha outro compromisso, eu precisava da Lei Áurea a partir de 19h30. E tudo conspirava contra.

Fui avisada de que teria que fazer uma apresentação para o deus maior da escala. Ah, não! Não é possível. Logo hoje? Parti para cima do meu anjo da guarda: "Cadê você? O que faz que me abandonou?". Num ímpeto humano, ele agiu. Trinta minutos depois, ao me deslocar até o Gabinete, o solado do meu sapatinho se desfaz. Volto para minha sala deslizando um dos pés pelo piso laminado.

Duas coordenadoras entram em seguida na minha sala anunciando más notícias. Enquanto uma delas está às voltas com formação a distância, digo: "Tenho um problema muito sério e presencial. Veja meu sapato". Solícita, ela oferece a bota. Claro que eu queria, mesmo que fosse amarela! "Quanto calça?", perguntei. "Trinta e cinco", respondeu. Para entrar no meu pé, a botinha precisava ser dois números maior. Felizmente, a outra coordenadora não tem pés tão singelos e me emprestou sandálias (altas e de salto finíssimo) e lá vou eu feito criança com patins novos, tentando me equilibrar em um objeto estranho.

Encontro com meu amigo para provar que nem tudo está perdido quando a gente é perseverante. Como não tinha completado a metade das 14.564 palavras, tento tirar o atraso em uma hora. O problema é que meu interlocutor parecia também ter vivido um dia de fúria e não estava com muita paciência.

Depois de tudo, fui direto para minha casa, empoeirada e com cheiro de tinta, mas ainda assim o meu castelo. No meio do caminho, tento fazer as pazes com meu anjo e pergunto: "Você não poderia ter me poupado pelo menos do último episódio do dia?". Ao que ele responde: "Tentei. Pedi, inclusive, que seu colega enviasse o email do pinto, mas você não leu os sinais".

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