domingo, 16 de dezembro de 2007

Nietzsche e shopping center

Penúltimo domingo antes do Natal. Terminei de assistir a um filme sobre Nietzsche que, apesar de superficial, expõe algumas das idéias do filósofo. Entre essas, a de que a vida é agradável para a maioria da gente, que se contenta com pequena porção de prazer; que a dor é inevitável quando o homem enxerga a vida sem analgésicos; que gostamos mais do nosso desejo do que do objeto desejado e que Deus está morto.

De tudo o que ouvi, aproveitei duas sentenças e lá fui eu para o shopping preparada para o pior. Saí de casa imaginando que eu não conseguiria vaga facilmente e que uma multidão ávida em gastar o 13º esperava por mim em filas.

No estacionamento, motoristas agonizantes rodavam atentos aos pedestres que circulavam com bolsas, recém-saídos do caldeirão do inferno. No carro à frente, no sentido contrário, um casal gesticulava nervosamente. Com certeza, eles devem ter dito muitas coisas um ao outro, menos juras de amor eterno. Posso imaginar o diálogo: "Eu disse que não queria vir aqui! Por que você não vem sozinha no meio da semana?" e então, ela respondia: "No meio da semana não tenho tempo. Sou eu para tudo. Você é um egoísta e só quer saber das suas necessidades!". Nada criativo o diálogo, porém, alguns casais se repetem.

Cantava Bob Dylan até que uma vaga me chamou. Foi assim mesmo. Entrei no estacionamento lotado e eis que surge uma vaga, sem procura exaustiva, sem brigas. "Se a dor não foi aqui, será lá dentro". Também me lembrei de uma amiga que diz que sorte para encontrar vaga, azar no amor. Mas isso não me abala. Até porque, se assim fosse, não haveria vaga para uma legião de mal amados.

O estacionamento não é coberto e minha sorte foi tanta que consegui vaga perto de uma das entradas; da C&A, mas podia ser pior. Fui direto para FNAC. Entre as prateleiras, achei um CD de Blues que eu procurava e na promoção. Um rapaz pergunta se estou decidida a levar o produto. Digo que sim sem entender. É quando ele aponta para a fileira e explica que era o último. "Que estranho", pensei.

Entro numa loja de roupas. Muitas peças reviradas e fora das araras. As vendedoras não conseguiam dar conta de colocar tudo em ordem. Meu tipo físico dificulta a procura. Nessas horas, gostaria de ter ancas, culote e um pouco mais de gordura. De repente, eis que surge um vestido 38. Convidativo, ele me conduziu à cabine de provas e ficou perfeito. Mais uma pequena porção de prazer para as massas.

Marcho para a fila do caixa. Uma senhora à frente inicia conversa sobre como a fila está lenta. "Quando decidi vir ao shopping, me preparei psicologicamente para isso", disse a ela. "Pense no lado positivo. Assim, não compramos por impulso", aconselho. A fila andou rápido, mais rápido do que a nossa ansiedade, pelo menos a minha.

Resolvo, então, prolongar a pequena dose de prazer: um milk shake de maltine do Bob´s. A caminho da praça de vociferação, uma criança me olha com cara sapeca e eu faço gracinha. Aquele pinguinho de gente tinha nas mãos uma arma: sorvete de casquinha. Ela vem na minha direção, brinca comigo e, como um espadachim, lança o florete no pitboy que passava a meu lado. O jeito dele era de quem admirava essas pequenas criaturas de duas formas: embalsamadas ou cozidas. Escapei de mais essa.

Havia fila no Bob´s e a caixa informa que eu era o oitavo milk shake da espera. Minha gula era maior que a impaciência e meu espírito já estava preparado para a dor. Por incrível que pareça, deu um problema na máquina e tinha um shake pequeno pronto, assim como o que encomendei. Os sete estavam em grupos. Como é doce o sabor da sorte! E fui eu mais feliz que a criança com o sorvete de casquinha.

Já me organizava para deixar o templo do consumo, quando passo por uma das saídas e percebo que um temporal escondia a cidade. Resolvo entrar numa loja de lingerie. Ao sair, com um cândido conjuntinho na sacola, percebo que o sol brigava para raiar. Fui até o carro sem que uma gota de chuva delineasse meus cachos não esculpidos pela chapinha.

Portanto, meus amigos, ao contrário do que diz o best-seller da auto-ajuda, O Segredo, deixo a todos outro conselho neste ano que se anuncia: não criem expectativas. Imaginem que a mulher que acabam de conhecer pode passar alguns dias sem se depilar e que sentirá dores-de-cabeça nas horas mais inapropriadas; que o homem pode não ligar na manhã seguinte e, apesar de todo o interesse inicial, desaparecer sem a discussão da CPMF, e que estamos sujeitos a todo tipo de infortúnio, mas que, a despeito disso, podemos nos divertir.

Ótimo 2008! Um ano novo sem expectativas, mas com muitas surpresas boas e felizes é o que desejo.

Um comentário:

Anônimo disse...

Adorei a sua saga reveladora, amore. A vida é melhor com suas pequenas surpresas, assim mesmo, inesperadas. Que 2008 continue te trazendo agradáveis surpresas. Leonardo