terça-feira, 4 de julho de 2000

"A literatura está desacreditada"

Marina Colasanti, depois de ter se firmado no mercado editorial como autora de títulos de comportamento e de livros infanto-juvenis, partiu para novo desafio: um e-book. Ontem, no Teatro da UniverCidade, ela lançou Vinte vezes você, pela Editora Mercantus. “Amar todos amam. Mas o amor atinge outro patamar quando é parte de uma paixão comum”, diz ela no seu primeiro livro eletrônico. A escritora, que se julga apaixonada por experimentações, atribui seu trabalho essencialmente literário à preferência das professoras por seus livros. “Não faço e não sei fazer obras didáticas. Acredito no poder formador da literatura.”



Como surgiu a idéia do livro eletrônico?
Não pensei um projeto e corri atrás das pessoas para executá-lo. Fizeram-me o convite e aceitei o desafio. Sou uma profissional que gosta sempre de experimentar coisas novas. Achei interessante a idéia de escrever para um outro tipo de veículo.

E como foi escrever um e-book não sendo internauta?
Uma grande diferença que senti foi não saber quem eram os leitores. Em uma revista, por exemplo, escrevemos para determinadas pessoas, identificadas através de pesquisas de mercado. Já num e-book não posso dizer nem que é como se estivesse escrevendo para o Maracanã, porque ele também tem um público definido. Então, o que fiz foi tentar não setorizar, apesar de acreditar que será mais lido pelas mulheres. Tenho essa idéia porque, além de o meu nome ter forte apelo com as mulheres, os homens tendem a não ler livros escritos por elas - e esse é um dado de pesquisa, não estou inventando. As mulheres são mais leitoras de comportamento.

Quem não se abre para o novo está fora do mercado?
Acredito ser uma questão de personalidade. Sempre tive paixão por experimentações e procurei diversificar meu trabalho, antes mesmo de toda essa discussão sobre as implicações da globalização. Há pessoas que seguem o caminho que traçam e não cedem um centímetro para o lado. Mas não podemos dizer, ainda, que está fora do mercado quem não domina a estrutura e o funcionamento da Web. Pode ser que isso venha a acontecer, contudo não podemos ser categóricos agora.

As professoras costumam vê-la como uma mentora. De que forma constrói a narrativa?
Fico muito feliz em saber que elas adotam e apreciam meus livros. Procuro sempre fazer literatura. Em nenhum de meus livros tenho a pretensão de dar lições de moral, mas fazer arte. E o texto literário tem como característica principal a pluralidade de leitura, abrindo infinitas possibilidades de interpretação. Talvez as professoras, mais sábias que suspeitam os editores, sintam-se beneficiadas por essas possibilidades variadas, que permitem a elas explorar o tema de diversas formas. Porém acho que quem pode responder melhor a essa questão são as próprias professoras.

Por que a senhora tem questionado a linha dos parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs)?
O problema é que esses temas transversais têm um caráter didático: Ética, Meio Ambiente, Pluralidade Cultural, Orientação Sexual. São todos politicamente corretos. Com isso, as editoras, conscientes de que o MEC dá preferência a esses títulos, querem editar livros que se enquadrem nesse perfil. O mercado se volta para tais tópicos, e boa parte dos autores começa a escrever sobre os temas para ter a certeza da compra. Isso não é literatura. A criação fica comprometida. Acontece que há um descrédito não expresso da capacidade da literatura como elemento formador. Basta ler os principais teóricos que todos dirão a mesma coisa: a literatura tem o poder de articulação com o inconsciente; ela estabelece um diálogo com o inconsciente, que é enriquecedor e permite ao leitor o trabalho dos seus problemas através das identificações que ele faz nos textos.

O curioso é que sem querer ser didática você acaba sendo...
Porque acredito na força da literatura como elemento formador, porque acredito na fantasia, na força real que está contida num texto irreal, de ficção. A literatura trabalha com metáforas, e elas são a linguagem do inconsciente. Os sonhos são metáforas. Quando escreve com determinadas metas em mente, sabendo exatamente aonde precisa chegar, você opta pelo previsível. O poder educacional e formativo da obviedade é quase nulo. Decora-se e esquece, mas não se estabelece um diálogo interior.

Qual a diferença de um adulto que lê desde criança para quem adquire o hábito na maturidade?
Vou contar um caso para ilustrar melhor a pergunta. Um antigo livreiro das livrarias Malasartes, voltadas para crianças, e Timbre, no Shopping da Gávea, afirmou certa vez que os melhores clientes eram os ex-meninos da Malasartes, que foram criados comprando livros. Uma criança que é educada lendo, que descobre desde a infância o quanto pode subtrair da leitura prazer, entendimento e valores essenciais, vai levar consigo vida afora esse patrimônio.

De que maneira os professores podem aguçar o hábito da leitura?
O educador que transmite o amor pela leitura é aquele que adora ler. Os que não são apaixonados sempre apresentam aquelas justificativas corriqueiras: não tenho tempo para ler, não tenho dinheiro etc. A minha sensação é de que há o livro certo para o momento certo. Essa é a chave da leitura. Os livros são vendidos para as escolas divididos por faixa etária, como se todos os alunos tivessem a mesma sensibilidade. As crianças não são feitas em série. Devemos pôr os títulos ao alcance dos estudantes e, quando acharem uma leitura chata, devem interrompê-la.

Mesmo que seja um livro de autor consagrado?
Ainda assim. Se a leitura estiver desagradável, pois que feche o livro e pegue outro. É melhor do que fazer uma leitura mecânica. Ler o que dá prazer é uma regra fundamental.

[Entrevista com Marina Colasanti, por Viviane Viana. Publicada no jornal O Dia, em 4 de julho de 2000]

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