terça-feira, 13 de junho de 2000

A ditadura nos fez repensar a História

Doutora em História Social, Mônica Velloso lançou, na semana passada, Que cara tem o Brasil? , pela Ediouro. Esse é o quarto livro da historiadora, que trabalhou durante 23 anos no Centro de Pesquisa e Documentação em História Contemporânea (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas e, atualmente, é pesquisadora pela Faperj na Fundação Casa de Rui Barbosa.



Por que lançar “Que cara tem o Brasil”?
A idéia surgiu, em parte, com o aniversário de 500 anos do País, em que aproveitei o marco para fazer uma reflexão crítica da História. Esse é um momento extremamente oportuno para pensarmos sobre nossa vida política, social e cultural. Tento mostrar ao grande público um trabalho que venho desenvolvendo durante anos na área de pesquisa, traduzindo o academicismo em linguagem simples, para sensibilizar as pessoas.

Mas os historiadores têm criticado os festejos dos 500 anos, dizendo que não há o que comemorar...
De fato, não temos o que comemorar se pensarmos nos anos marcados pela colonização, trabalho escravo e injustiças sociais, mas negar essa data também não solucionará os problemas. Como falei, devemos aproveitar para refletir. Os marcos comemorativos devem servir para a gente pensar, fazer um balanço, lançar novas idéias. Não é para produzir festas e comemorações sem fim.

O que mudou no ensino de História nos últimos anos?
Durante muito tempo, a disciplina era sinônimo de decoreba, e os alunos eram obrigados a memorizar listas de nomes, fatos e datas. Tratava-se de um saber que não tinha nada a ver com a realidade, com o cotidiano das pessoas; um aprendizado absolutamente insosso, desagradável. A História preocupou-se durante muito tempo com o relato dos grandes feitos. Os heróis dos acontecimentos não tinham vida própria, eram personagens sem paixão. No fim da década de 70 tem início um novo interesse pela História. A ditadura, por exemplo, obrigou as pessoas a repensar algumas questões. Passamos a fazer uma avaliação política de disciplina, ligada aos movimentos sociais. Já na década de 80 surge uma história mais subjetiva, que valoriza as experiências dos indivíduos e analisa de que forma essa vivência contribui para os acontecimentos do País.

Há estudantes, principalmente da área tecnológica, que questionam o estudo de História. Qual a sua importância no currículo?
Independente da carreira que seguirão, o estudo de História é imprescindível para que as pessoas possam captar a alma do seu tempo. O que alunos e até professores precisam entender é que a disciplina não se restringe a contar o passado. O que a História faz é acompanhar situações e fatos que ocorrem e, de alguma maneira, ainda estão em andamento. Para entender o que acontece hoje é fundamental sabermos o que houve lá atrás; só assim poderemos propor soluções e compreender o rumo da história.

Com a sedução da Internet, de que forma os professores podem tornar o estudo de História mais atraente para o aluno?
Essa é uma questão em que os professores devem estar muito atentos. Precisamos também seduzir os alunos trazendo toda essa modernidade para a sala de aula. E, para batermos a concorrência, todos os recursos são válidos. Os jovens precisam sentir que a cultura está pulsando na sociedade. A aula é apenas uma pauta para eles saírem pelo mundo. Para isso, é importante estabelecer nas classes ligações o tempo inteiro entre passado e presente e, sobretudo, entendermos que essa não é mais a História de vultos históricos.

O que fazer, já que ainda há mestres que ensinam da forma tradicional?
Para isso, são fundamentais cursos de capacitação e literatura atualizada. Pouco se fala em motivar professores; isso é um erro. Alguns mestres estão há anos cumprindo uma rotina atribulada e ganhando pouco, e é essencial despertar o interesse deles para que sintam necessidade de adquirir mais informações, conhecimentos e se inteirar sobre as últimas novidades da área.

Alguns vestibulandos, apesar da vontade de fazer História, acabam optando por cursos mais lucrativos. O maior nicho para o profissional dessa área ainda é o meio acadêmico?
Embora outras áreas estejam surgindo, o mercado que mais absorve esse profissional é o magistério. É muito difícil dedicar-se à pesquisa no Brasil. Tenho lutado todos esses anos para permanecer nesse campo. Claro que estão sendo abertos novos mercados. O historiador é recrutado, por exemplo, em departamentos de memória e documentação, história oral, consultoria para veículos de comunicação, patrimônios. Acredito que a tendência seja abrir o leque de atuação para o profissional, até porque a multidisciplinaridade é vital.

O brasileiro volta e meia é apontado como desmemoriado. Isso é fato? Daqui a uns anos não mais lembraremos da geração cara-pintada e do impeachment do Collor?
Isso virou clichê. É crescente a preocupação memorialística. Muitos programas educativos vêm sendo incrementados, e os fatos da nossa história têm sido alvo de preocupações. O fato é que esse movimento de valorização da memória toma proporções maiores.

[Entrevista com Mônica Velloso, por Viviane Viana. Publicada no jornal O Dia, em 13 de junho de 2000]

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