terça-feira, 6 de junho de 2000

"Decoreba, às vezes, é necessário"

Professor honorário da Universidade de Buenos Aires e titular do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Iván Izquierdo, naturalizado brasileiro, é o pesquisador mais citado em publicações internacionais (de 1981 até hoje foram mais de 3.800 citações). Suas pesquisas sobre mecanismos da memória são referência mundial para estudos sobre as funções cerebrais. “A melhor maneira de exercitar a memória é utilizando-a e, fundamentalmente, para a leitura. Ler estimula a memória visual, verbal, de imagens e motora e acaba ativando outras funções cerebrais”, defende.



De que forma as informações são armazenadas no cérebro?Através de três processos distintos: memória do trabalho, de curta e de longa duração. A memória do trabalho analisa a informação on-line e a guarda durante alguns segundos, permitindo sua compreensão; isso ocorre por meio de mecanismos eletrofisiológicos. Na de curta duração, as informações são guardadas em redes neuronais e permanecem durante três ou quatro horas. A terceira é o processo de memória de longa duração, em que os estados de ânimo, as emoções e as memórias são conservados por longos períodos, de horas até anos.

Como podemos exercitar a memória?
Para treiná-la, é preciso que seja utilizada no dia-a-dia. E a atividade que mais usa os recursos da memória é a leitura. Ler estimula a memória visual, reconhecendo as letras e suas combinações; a verbal, compreendendo o significado da combinação das letras; a de imagens, levando o leitor a associar imagens às expressões; e a memória motora, que é a do movimento que as cordas vocais fazem durante a leitura, mesmo quando não há expressão labial. Ademais, todos esses movimentos acabam ativando outras funções cerebrais.

O aluno quando tem interesse no assunto retém mais as informações?
Sem dúvida nenhuma.

E como os professores podem motivá-los?
Apontando o que há de mais importante em cada tema a ser aprendido, mostrando sua aplicação na vida prática ou no conhecimento em geral. As aulas precisam despertar a atenção do aluno, espantando a monotonia da sala de aula.

Muitos educadores criticam a memorização porque, com o tempo, o estudante esquece o que decorou. A compreensão é sempre a melhor alternativa?
Não. A memória de longa duração, quando bem adquirida, isto é, com motivação, atenção e, se possível, repetição, pode durar anos. Se assim não for, pode haver gravação deficiente ou esquecimento, mas o mesmo ocorre com qualquer outro método. Para certas coisas, como tabuadas, datas históricas, nomes e teoremas matemáticos, a solução é decorar. Já o texto, há quem acabe decorando-o, de tanto que o compreende; mas o oposto não é verdade. Decorar um texto não é razão para entendê-lo. Contudo, volto a insistir: o segredo é motivar o aluno, despertar e manter sua atenção.

O vestibular exige que o jovem memorize muitos dados. De que maneira esse aprendizado pode tornar-se menos cansativo?
Deve-se acabar com o vestibular, que é uma maldição nacional, o antiensino. Ele só faz o aluno desaprender, ou ensina justamente o aluno a aprender como se faz para guardar uma informação por tempo limitado, sem entendê-la.

Alguns vestibulandos sofrem lapsos de memória na hora da prova. O que causa os populares “brancos”?
Os responsáveis são a ansiedade e o estresse (que nada mais é do que uma forma alta de ansiedade). Em uma situação dessas, os hormônios da supra-renal (corticóides) e outros são liberados de maneira exagerada e acabam por inibir os núcleos cerebrais moduladores da memória. Isso acontece não só com vestibulandos, mas também com conferencistas, atores e até professores em uma situação de tensão.

Qual o tempo máximo que os alunos devem permanecer na escola para que o estudo seja proveitoso?
Isso depende do aluno, da idade e do nível de escolaridade. O tempo das aulas, no entanto, não deve ultrapassar 50 minutos – período máximo em que o ser humano é capaz de manter a atenção concentrada em um assunto – seguido de intervalos de cinco a 10 minutos, com um intervalo mais longo (de 15 a 20 minutos) no meio da manhã ou da tarde.

Tem-se falado muito sobre inteligência emocional. Afinal, o que é isso?
Não existe inteligência emocional. O termo é mal-utilizado. Existem a inteligência e as emoções, que são diferentes conceitual e biologicamente. As emoções afetam a memória, a percepção, a capacidade verbal e outros aspectos da inteligência. É fundamental o controle sobre as emoções, de maneira a poder utilizar a inteligência em toda a sua capacidade. Apesar de nem sempre ser possível, pelo menos, um certo grau de controle emocional, é necessário e viável: é o que diferencia uma criança de 6 anos e outra de 12, por exemplo. A de 12 sabe, em geral, protelar uma recompensa imediata (quero sorvete, já!) para fazer ou ganhar algo mais importante em troca (se acabar a lição primeiro, poderei comer todo o sorvete que quiser). Já a de 6 anos não consegue isso facilmente.

Qual a sua importância para os alunos?
A importância disso na vida do estudante, e de qualquer um, é óbvia. Vários países utilizam testes para avaliar a capacidade de controle emocional dos candidatos ao emprego. De nada serve para uma empresa contratar o melhor analista de sistemas, se o indivíduo for, digamos, um assediador sexual incontido. Ou contratar o melhor pedreiro, se esse for incapaz de conter sua vontade de beber cachaça. Nem um nem outro vai trabalhar, nem deixará os outros trabalharem.

[Entrevista com Iván Izquierdo, por Viviane Viana. Publicada no jornal O Dia, em 6 de junho de 2000]

Nenhum comentário: