sábado, 30 de dezembro de 2000

"Estão destruindo o ensino no Brasil"

Marilena Chauí é professora de História da Filosofia Moderna e de Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP), onde leciona há 32 anos. Experiência não lhe falta para falar sobre Educação. Nesta entrevista, ela questiona a eficácia do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) como instrumento democratizador do acesso à universidade e critica o Governo por seguir a cartilha do Banco Mundial, que “exige que os países periféricos encolham a esfera pública em nome do ajuste fiscal”. “Não é miopia nem burrice: é uma política deliberada de desmonte da Educação pública”.



Como a senhora vê a Educação brasileira hoje?
A reforma do País definiu a Educação como uma área não exclusiva do Estado. Com isso, ela deixou de ser um direito para se tornar um serviço, prestado tanto pelo Estado como por empresas privadas e, paralelamente, foi estimulada à privatização. Essas duas conseqüências estão em consonância com a política do Banco Mundial e do Banco Internacional de Desenvolvimento que, de acordo com os padrões neoliberais, exigem que os países periféricos encolham a esfera pública, em nome do ajuste fiscal. A reforma do ensino seguiu essas recomendações. E a privatização das universidades públicas aumenta a vergonhosa desigualdade do País.

Como democratizar o acesso à universidade? O Enem é um caminho?
O Enem é uma caricatura do processo de avaliação norte-americano, cuja história é diferente da nossa realidade. A democratização se faz pela melhoria da qualidade do ensino público básico (o que inclui professores mais bem preparados e melhoria dos salários); abolição do mercado de cursinhos e da formação atual do vestibular; introdução de bolsas para estudantes carentes e de cidades universitárias, com alojamento e alimentação; ampliação das universidades públicas; por uma política pública editorial e de Informática que garanta o acesso aos livros e materiais informatizados; e pela redefinição do papel da universidade numa sociedade cujo diferencial está para além do escândalo.

O que a senhora acha do projeto de reserva de vagas para alunos que estudaram em escolas públicas?
É tapar o sol com a peneira. Não se mexem nos problemas que apontei e copia-se o sistema de cotas para uma sociedade que é completamente distinta da norte-americana. Lá, esse sistema nasceu das lutas pelos direitos civis. Aqui, é assistencialismo e benemerência. O que se deve fazer é garantir a esses estudantes o direito de acesso à universidade, melhorando a qualidade do ensino e assegurando condições para que possam realizar efetivamente seus cursos.

O que houve com a universidade depois da ditadura?
Divido a história da universidade em quatro fases, a partir da ditadura: funcional, de serviços, de resultados e operacional. A universidade funcional ofereceu à classe média uma compensação por seu afastamento das decisões políticas. Era a realização do sonho de ascensão social através do diploma e, para isso, a universidade pública foi massificada e a particular, estimulada. A de serviços pretendia oferecer mão-de-obra especializada para o mercado que estava em expansão; a de resultados se dirige às pesquisas e à formação dos estudantes segundo as exigências das empresas. Já a operacional caracteriza-se pelo estímulo à competição individual; pela idéia de que o mercado é que dá sentido ao trabalho intelectual e pela redução da pesquisa à produtividade.

Quem são os jovens que ocupam, hoje, os diretórios acadêmicos?
Em1968, a juventude via a universidade como uma parceira nas lutas sociais. A política neoliberal incutiu nos estudantes uma ideologia feroz e poderosa, que define a universidade pelas relações com o mercado. Os alunos, hoje, estão convencidos de que essa é a única função da universidade. O resultado é a despolitização, a perda de referenciais, o abandono da cidadania e a resignação. Os jovens não se sentem sujeitos históricos e políticos, mas indivíduos isolados competindo num mercado que os torna rapidamente descartáveis.

As universidades públicas têm perdido professores. É possível que a qualidade caia?
Essa situação foi criada, como eu falei, pela privatização da Educação, entendida como serviço e destinada ao mercado. Nos últimos seis anos, os professores das universidades paulistas e os das federais não tiveram um único reajuste salarial. Além disso, como o Governo anunciou aos universitários aos quatros ventos que as universidades são o ralo por onde se esgota o dinheiro público (parece brincadeira!), criou-se na sociedade a idéia de que somos privilegiados e marajás. O que estamos vendo é o resultado do trabalho do Governo, que estimula a privatização, dá benefícios às empresas universitárias, ao mesmo tempo em que congela os recursos para as universidades públicas. Não é miopia nem burrice: é uma política deliberada de desmonte da Educação pública.

O Provão influenciará, a médio prazo, na qualidade do ensino nas universidades?
Já influencia. Assim como as escolas do Ensino Médio preparam apenas para o vestibular, agora, as universidades instruem para o Provão. Não há eficácia alguma. Em vez de estabelecerem critérios decisivos e fortes para permitir a abertura e o funcionamento das empresas universitárias, querem, depois, controlar o desastre com o Provão.

[Entrevista com Marilena Chauí, por Viviane Viana. Publicada no jornal O Dia, em 14 de dezembro de 1999]

Nenhum comentário: