de tudo (muito) pouco
quarta-feira, 7 de março de 2012
Uma hora parecia a ela uma semana e uma semana, um sonho. Hoje ela completava esse sonho. Comemorava, é verdade, mas essa alegria era maculada pela ansiedade da próxima e pela angústia da lentidão das horas que faltavam. Um ano vem e vai rápido, mas um dia se move com o pesadume dos caminhantes perdidos no deserto.
terça-feira, 6 de março de 2012
O mundo é para ser voado
Era acossada por um desejo premente de voar, ainda que baixo e com as pernas que tinha no lugar de asas. Os morros e os campos verdes que se perdiam no horizonte tomavam forma como paisagem preferida e, por isso mesmo, recorrente nos sonhos. Mas tamanha a restrição imposta, ela se contentaria naqueles dias com passos curtos e definidos pela área da casa.
Nesse ziguezaguear da mente, encontrou a pequena fissura do guarda-roupa que compunha o cenário que há alguns dias intimava seu olhar com despotismo monarca. Naquela perspectiva, deitada quase sempre sobre o braço esquerdo, era impossível não reparar o desgaste da madeira e o divórcio da cola.
Lembrou o desabafo de Rubens Paiva. Ficou demasiadamente impressionada quando tia Rosângela emprestou aquele livro que celebrava o ano passado. À época, queria insuflar com a força do pensamento vitalidade às partes aposentadas do corpo do rapaz para lhe restituir a liberdade do caminhar. Como não podia, jurou que nunca se lançaria de cabeça em águas desconhecidas. Mas para compensar ao corpo essa castração de aventura, fez isso a vida inteira com a alma.
Ao retornar o olhar para fissura, de onde ele nunca saiu de fato, tentou se consolar com a finitude de seu aprisionamento. Sim, havia uma data limite, um prazo, um tempo a ser consumido e esgotado. Mas enquanto o futuro andava pé ante pé com atraso, se encerrava na sua cabeça, em seus medos e esperanças.
Nesse ziguezaguear da mente, encontrou a pequena fissura do guarda-roupa que compunha o cenário que há alguns dias intimava seu olhar com despotismo monarca. Naquela perspectiva, deitada quase sempre sobre o braço esquerdo, era impossível não reparar o desgaste da madeira e o divórcio da cola.
Lembrou o desabafo de Rubens Paiva. Ficou demasiadamente impressionada quando tia Rosângela emprestou aquele livro que celebrava o ano passado. À época, queria insuflar com a força do pensamento vitalidade às partes aposentadas do corpo do rapaz para lhe restituir a liberdade do caminhar. Como não podia, jurou que nunca se lançaria de cabeça em águas desconhecidas. Mas para compensar ao corpo essa castração de aventura, fez isso a vida inteira com a alma.
Ao retornar o olhar para fissura, de onde ele nunca saiu de fato, tentou se consolar com a finitude de seu aprisionamento. Sim, havia uma data limite, um prazo, um tempo a ser consumido e esgotado. Mas enquanto o futuro andava pé ante pé com atraso, se encerrava na sua cabeça, em seus medos e esperanças.
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